22.6.10
Esta Copa do Mundo não é nossa!
3.6.10
Qual é o meu lugar no texto?
17.3.09
Um dia a casa cai!
Como diria Karl Marx: a religião é o ópio do povo. E ele tinha razão. Logo após uma época onde a razão era o crivo de tudo, mergulhamos de cabeça na era da intuição, na era da religiosidade.
Hoje não é mais vergonha ter religião como era há alguns anos atrás, Muito pelo contrário, não ter religião, não ter fé é mostrar uma insensibilidade à vida.
É engraçado como toda religião se resume em: o homem fazendo algo para alcançar o divino. Em todas as religiões o homem passa a sua vida, ou várias vidas, pagando a sua dívida com o divino. No hinduísmo, islamismo, judaísmo, espíritas, cristianismo e também os evangélicos.
O fazer algo para que Deus nos abençoe ou para que ele nos retribua com a salvação é apenas uma cópia barata das outras religiões.
Mas um dia o cenário pode cair, e acredito que já esta caindo. Se nós evangélicos pregamos uma coisa e vivemos outra, provamos que somos apenas mais uma opção religiosa e que Jesus é apenas mais um ópio.
Não podemos usar a religião como uma fuga de nós mesmos, como um jeito de ser justificado de nossos pecados. Ir a igreja, dar o dízimo, transar depois do casamento, fazer o bem ao próximo é bom, mas não justifica ninguém.
A vida religiosa pode enganar por um tempo, mas um dia a casa cai e todos verão que era apenas fachada, só para os outros verem.
É por isso que adoro a mensagem do evangelho e do Reino de Deus, pela única vez vi Deus indo até o homem e Ele mesmo pagando o preço.
No direito romano, diz Santo Agostinho, a pena é estipulada não pelo erro que cometeu, como é aqui no Brasil, mas por quem você ofendeu. Se você matasse um escravo, sua pena era leve, mas se matasse um governador provavelmente receberia a pena de morte. Tudo se baseia em quem você é e a quem você ofendeu e, não necessariamente, o que você fez.
O problema é que o ser humano ofendeu a Deus, pois pecamos contra Ele, e nossa divida não tem como ser paga por nós. A única forma é se Ele mesmo decidir pagar, pois uma dívida contra Deus só pode ser paga por um Deus.
Nessa mensagem libertadora da cruz de Cristo é que somos perdoados completamente, porque Cristo pagou a pena e nos justificou. Por essa razão posso viver uma vida sem ilusão, sem falsidade, pois quem poderia me julgar já me julgou e declarou: PERDOADO!
5.12.08
Brincando com os cavalos

Tive o privilégio de crescer em um sítio e, entre a idade de 8 e 11 anos tive dois cavalos, era responsável por cuidar deles, tirar os carrapatos, limpar, passar remédio nas mordidas de morcego e, principalmente, levá-lo para onde tivessem verdes pastos. Essas eram as condições para eu poder brincar com ele. Nunca tive uma cela e nem cabresto, às vezes montava nele com uma corda e cavalgava meio sem direção. O fato de eu deixar ele me levar era a nossa brincadeira, era o que nós dois gostávamos. E o mais fantástico é que quase sempre ele me levava a um lugar que eu não conhecia.
Certa vez, tomei um coice e até uma mordida dele e o cara que nos vendeu falou que era porque eu não estava montando nele com o arreio e ele estava ficando desacostumado e voltando a ter vontade própria. Só comprando um arreio para domá-lo de novo.
Esta experiência que tive, brincando com os cavalos, me ensinou muito sobre hermenêutica. Vou explicar:
A pretensão moderna em dissecar a palavra de Deus de uma forma científica se tornou ineficaz pedagogicamente e de instrumento de transformação.
Não sei por que a maioria dos professores nas escolas nos ensinou que somos maiores que os textos só porque somos os intérpretes. Ler se tornou sinônimo de domínio. Como um cavaleiro domina o seu cavalo na arena de um rodeio, a hermenêutica se tornou o cabresto das letras e o premio é dado para aquele que demonstra mais habilidade em domar o cavalo.
Assim, vamos até o texto para analisá-lo de forma científica e confundimos neutralidade da pesquisa com frieza. Com isso, matamos as poesias, os contos, as narrativas, as parábolas, os textos apocalípticos, entre outros. A forma com que as escolas nos ensinaram a ler, só me serve para ler jornal.
Quero regredir a minha infância e brincar com os cavalos, voltar aos tempos em que a bíblia era lida para mim, assim como foi para os primeiros ouvintes do texto bíblico, onde não sou o domador de cavalos e sim o menino que brinca com o cavalo, que o monta sem superioridade, em uma confiança mútua, sem achar que conhece o caminho.
Quando ouvia as histórias como criança, na frente dos meus olhos já não estavam mais as letras como hoje estão e sim a imaginação, os sonhos que transformavam as palavras em imagens.
Quero ouvir Salmos como ouço Vinícius de Moraes, que narrem o livro de Gênesis como foi narrado Indiana Jones, quero imaginar Apocalipse como um gibi de manga, ouvir as parábolas contadas num banquinho de praça por Forest Gump, receber as regras de Levítico lidas em alta voz por um juiz de tribunal sério e inteligente, ser sussurrado cantares por minha amada e, abrir o e-mail, indevidamente, que Paulo mandou para Timóteo.
Quando ia brincar com os cavalos, só porque não estava domando-os, não significava que estava desrespeitando ou os rebaixando, estava apenas deixando-os ser o que são: cavalos.
Eu sei que, assim como brincar com os cavalos, ler a bíblia dessa maneira é bobeira, coisa de criança. Hoje somos adultos e temos que entrar na arena para que todos possam ver a nossa virilidade.
Mas...Não custa nada sonhar!
20.10.08
Por que alguns de nós viram assassinos?

Estou muito indignado com tudo que aconteceu em Santo André - SP esta semana, indignado com o despreparo da polícia, com o que um jovem tomado por um ciúme pode fazer, com a impressa que o coloca ao vivo só para dar audiência no ar e ganhar dinheiro com as desgraças alheias, indignado de como é fácil encontrar armas neste país e, com a igreja, que não vai se manifestar por achar que não tem nada a ver.
A notícia me pegou longe de casa, estava pregando em um acampamento em Joinvile e foi um grande susto, pois tinha certeza que o rapaz só estava enrolando e já tinha caído em si na burrada que tinha feito. E que era questão de tempo para ele soltar a menina.
Algumas perguntas ficaram em meu coração a serem resolvidas.
Por que algumas pessoas perdem a cabeça e se tornam assassinas?
Qual a diferença entre um assassino e uma pessoa de bem? Não seria o puxar o gatilho? Os que puxam são assassinos e os que não puxam não são assassinos? Ou tem quem puxe que não é e outros que não puxam que são? Complicado os critérios da lei sobre réu primário, quanto mais a teologia por trás disso.
Este caso me trouxe a memória o primeiro assassinato na escrituras, o de Caim e Abel (Gn 4: 1-8). E a mesma pergunta surgiu em meu coração, Caim matou porque era assassino, ou virou assassino porque matou?
Sempre colocamos o foco da revolta de Caim no fato de Deus ter aceitado a oferta de Abel e rejeitado a sua oferta. E ficamos perguntando por que Deus a recusou, sendo que nenhuma regra tinha sido estabelecida. Ou falamos que só pode ser que um deu de coração e outro não, sendo que a bíblia mesmo não coloca isso.
Lendo, reparei que no v.7 Deus vai conversar com Caim sobre o porquê de seu sacrifício não ter sido aceito e fala que se ele fizer o bem tudo ficará bem, mas se não, o pecado estará a porta e vai entrar. E mesmo sendo avisado Caim matou o irmão e procedeu com o mal.
Caim não se tornou assassino porque matou Abel, Caim matou Abel porque já era assassino. É por isso que seu sacrifício não foi aceito!
É duro assumir e entender isso que a bíblia nos coloca. Todos nós somos de natureza má e temos o mal em nossos corações.
Depois da queda todos nós fomos condenados a nascer egoístas, invejosos, deturpados sexualmente, corruptos, assassinos. Essa foi a escolha da humanidade em Adão, é assim que, no fundo, no fundo somos.
Aí você me pergunta: mas na prática nem todos puxam o gatilho. Eu mesmo não sou um tarado, mau caráter ou assassino!
Pois é aí que entra a graça de Deus. Quando não chegamos de fato a deturpação total de nós mesmos, foi porque a graça de Deus chegou até nós. Ela é chamada de graça comum ou graça sustentadora, pois cobre a crentes e não crentes e serve para manter a criação. Se não fosse ela a vida no mundo seria insustentável e todos nós viveríamos o mais pleno pecado de nossa natureza, de nossos corações.
A discussão agora vai ser se o Lindemberg é assassino ou um rapaz que teve um surto e matou por desespero ao ver a polícia entrar no apartamento. Sobre como a lei brasileira vai decidir isso, não tenho condições de opinar. Mas a pergunta teológica que surgiu no meu coração, vou arriscar a mudar.
A pergunta não é por que alguns de nós se tornam assassinos e sim, por que todos não são assassinos depois da queda? E a resposta é graças a cruz de Cristo que cobre a todos sustentando com a dádiva que vem de Deus, chamada amor.
Senhor, continue a sustentar com o bem a mim e aos meus amigos, para que o mal não ganhe espaço em nossos corações e que não nos tornemos o que realmente somos: maus!
17.4.08
Estou cansado de me cansar

Como os meus mestres se cansaram, sei que pode parecer prepotente, mas também decidi escrever um ESTOU CANSADO, mesmo que seja de me cansar. Ao respirar profundamente sinto que estou cansado de algumas coisas que se perpetuam na igreja.
Estou cansado das pregações longas, onde nos primeiros quinze minutos já estamos viajando e não estamos prestando atenção, mas ficamos até o fim porque aprendemos que temos que ficar.
Estou cansado das broncas de ministros de louvor, que jogam um peso nas nossas costas por não estarmos cantando e batendo palmas, sem levar em consideração como estamos naquele dia.
Estou cansado do púlpito e dos bancos enfileiradas, que nos isolam uns dos outros e nos colocam em um lugar abaixo do pregador.
Estou cansado de ver que a única interação que temos com o próximo em um culto é quando o pastor manda virar para a pessoa do lado e falar alguma coisa.
Quando poderei levantar a mão e tirar uma dúvida na pregação do culto de domingo à noite?
Quando chegará o dia em que não verei mais as nucas e me constrangerei ao olhar no olho daquele que não teve uma boa semana?
Quando poderemos cantar canções de lamento pelo evangelho que vivemos no Brasil?
Ou quando poderemos celebrar sem nenhuma canção?
Estou cansado de achar que quando vier o data show vai ser a evolução do culto, o primeiro passo para um culto mais jovial.
Estou cansado das músicas espirituais que nos ensinam a viver no céu esquecendo que temos que aprender a viver primeiro aqui na terra.
Estou cansado das reclamações de líderes de jovens falando que os adolescentes são descompromissados e com valores invertidos!
Estou cansado de achar que posso realmente impactar uma igreja pregando apenas um fim de semana e indo embora.
Quando será o dia em que colocaremos os homens para cuidar dos cultos das crianças e as mulheres dos cultos dos adultos? Quando o pastor de jovens será o pastor principal e o de adultos o auxiliar?
Quando tiraremos aquele tapume da porta da nossa igreja e deixaremos que aqueles que passam na rua nos vejam?
Quando um disciplinado pela igreja deverá cumprir a disciplina assistindo todos os cultos, participando de todas as ceias e passando a semana com todos os líderes?
Quando verei líderes e pastores pedindo desculpas por estarem gastando todo o dinheiro de Deus em templos ao invés de investirem em pessoas?
Sei que é chato ler o desabafo de um jovem, mas não se preocupe, estou cansado hoje, mas amanhã vou fazer como todos que conheço que escreveram um ESTOU CANSADO: Descansarei e me acomodarei!
3.4.08
Eu acredito na rapaziada

“Eu acredito é na rapaziada que segue em frente e segura o rojão.
Eu ponho fé é na fé da moçada que não foge da fera e enfrenta o leão.
Eu vou à luta com essa juventude que não corre da raia a troco de nada.
Eu vou no bloco dessa mocidade que não tá na saudade e constrói a manhã desejada...”
O tema do nosso IX Encontro para Pastores e Líderes de Jovens e Adolescentes “Eu acredito na rapaziada” foi tirado de uma música do poeta Gonzaguinha. Mas, muito antes da poesia de Gonzaguinha o apostolo Paulo falou para os jovens que não deixem que os desprezem por serem jovens (1ª Tm 4.12) e o apostolo João completou dizendo “Jovens, eu lhes escrevi, porque vocês são fortes, e em vocês a Palavra de Deus permanece e vocês venceram o maligno.” (1 João 2:14b)
Nós da Missão Jovens da Verdade, MPC, SEPAL e outras inúmeras missões que trabalham com jovens, entendemos que Jesus foi o grande exemplo do líder que acreditou no jovem e o colocou como instrumento do seu Reino. Nos evangelhos vemos o Jesus adolescente que ensina os mestre no templo, o menino que entrega todo o seu lanche para Jesus fazer o milagre da multiplicação, o jovem Timóteo que bem novo assume uma igreja sozinho, ou as crianças que foram colocadas por Cristo como referencia do Reino de Deus.
Aos passos de Jesus prosseguimos em nossa missão de evangelizar, edificar e treinar a juventude para que se multiplique, engajada na tarefa de estender o Reino de Deus no Brasil e no mundo.
Ao longo dos anos percebemos que, quando se trata do ministério com jovens ou adolescentes, precisamos encorajar, investir e confiar. Temos entendido que aprender a “passar o bastão” tem sido um dos maiores desafios da liderança atual. Enfim, capacitar a juventude para que ela assuma as rédeas da Igreja do novo século será nossa difícil tarefa nos próximos anos.
Por isso, convidamos você, pastor ou líder de jovens ou adolescentes, para passar estes três dias conosco, aprendendo com os mestres, compartilhando experiências e louvando a Deus que acredita na rapaziada!
Marcos Botelho
Coordenador do Encontro
O encontro será no dia 6 a 8 de junho em Arujá/SP, confira os detalhes no site do Jovens da Verdade.
21.2.08
O outro lado da Missão Integral

Aprendi que uma boa teologia não se faz apenas de idéias e sim é o fruto de uma reação do que se está vivendo. Por isso as boas teologias ou migram seu foco de reação junto com a sociedade ou já nascem com data para ficarem apenas na história.
Tenho me apaixonado pela reação que surgiu de uma reunião de missionários do mundo todo na Suíça (Lausanne/1974). Nesse congresso eles produziram um texto chamado Pacto de Lausanne com uma proposta de missão integral da igreja, com o lema “o evangelho todo, para o homem todo para todos os povos”.
Quem deu o tom deste congresso foram os missionários, latino americanos, africanos e asiáticos do chamado países do terceiro mundo. E por aqui no Brasil já estávamos vivendo por uma minoria esta proposta de missão. Ariovaldo Ramos descreve em seu livro que os movimentos jovens como Aliança Bíblica Universitária, Jovens em Cristo, Jovens da Verdade, Sociedades dos Estudantes de Teologia Evangélica entre outros que já militavam com os jovens nas ruas por um evangelho mais contextualizado e mais eficaz se juntou com teólogos preparados e dispostos a empregar uma mudança, líderes como Robson Cavalcante, Dieter Brephol, Manfred Grellert, Caio Fabio, Osmar Ludovico,Jasiel Botelho, Valdir Steurnagel, Paul Freston entre muitos outros. (Nossa Igreja Brasileira/Hagnos).
Nos últimos 10 anos, a Faculdade Latino-Americana de Teologia Integral (FLAM/JV), dirigida pelo Ariovaldo Ramos, tem se preocupa em refletir e reagir a Teologia Integral do ponto de vista da America Latina, a partir do contexto brasileiro.
Mas partindo do principio que uma boa teologia é aquela que é fruto de uma reação, a luz da bíblia, do contexto em que estamos inseridos, e como diria Ziel Machado: Uma boa teologia necessariamente tem que nos colocar de joelhos. Temo ver a morte da missão integral sem ela ter chagado a sua maturidade.
Jesus Cristo já foi anunciado para o Brasil! Na sua maioria não foi da forma certa, não foi pelas pessoas certas e nem sei se o Jesus que muitos pregam é o mesmo Jesus que a bíblia narrou. O fato que todos conhecem a figura de Jesus e os seus seguidores “evangélicos”, pois a evangelização se tornou apenas mais um braço do capitalismo.
Como a proposta surgiu de um congresso de missões, não tinha como evitar a reflexão na cosmo visão de um missionário, e muito que foi produzido é uma proposta de missão integral.
Mas creio que está na hora de pensarmos não mais apenas na perspectiva do que vai levar a mensagem e sim nos que irão receber a mensagem, precisamos começar a desenvolver o que é a Conversão Integral.
Começar a refletir sobre pessoas na bíblia e na história que tiveram uma conversão integral e que mudaram não só suas mentes, mas o comportamento e sociedade em que estavam.
O que é se converter de uma forma integral? O que muda na vida daquele que conhece a pessoa de Jesus Cristo? Qual a diferença no seu lar, no trabalho e na cidade de uma passou que experimentou uma conversão em todas as áreas? Qual a diferença de uma igreja que tem pessoas verdadeiramente convertidas?
São muitas perguntas do outro lado da moeda que ainda não foram respondidas por completo, pois estamos desenvolvendo bons missionários, mas nem tantos cristãos de forma integral.
Vivemos em uma sociedade onde não se fala e nem se entende conversão. Não se fala em ser um seguidor de Cristo, pois um grupo ensina que temos que ser um consumidor da igreja, e outro ensina que o convertido é aquele que mudou suas idéias e que perpetuam ritos semanalmente.
Precisamos correr atrás do atraso e consertar a proposta do “evangelho da conversão parcial” que os veículos de massa já fizeram e estão fazendo. Precisamos mostrar e ensinar não apenas o que é a missão integral da igreja, mas o que é uma conversão integral, o que é realmente acontece com alguém que conheceu Jesus Cristo de Nazaré.
17.1.08
Qual foi o pecado de Lúcifer?

Questiono-me sobre qual foi o pecado de Lúcifer? O porquê em certo ponto da eternidade ele teve essa idéia de ser igual a Deus. Assim, do nada, ele, um anjo de luz, em um dos mais altos cargos celestiais, ele que já estava no status mais alto alcançado por uma criatura, tem a idéia de ser mais do que é? A bíblia não conta a história de Lúcifer, e graças a Deus que não, pois, mesmo não contando, tem gente que gasta mais tempo falando dele do que de Cristo. Tudo que falamos de sua queda é especulação da revelação. Mas esta pergunta especulativa, de qual foi o verdadeiro pecado de lúcifer me intriga até hoje e gostaria de escrever algumas idéias sobre o assunto.
É um pouco difícil entender a origem das quedas. Sempre “pisamos em ovos”, esbarrando em valores filosóficos. Mas, parece que qualquer ação primária de uma criatura contra Deus é fruto de um estímulo externo, como, por exemplo, em Adão e Eva, quando houve a necessidade de algo externo, a serpente (satanás), para estimular algo no ser humano e tentá-lo a ser (ou fazer) algo que para o qual não foi criado. O primeiro pecado da humanidade só veio depois de um estimulo externo, e não interno como é hoje, pois a criatura de Deus sempre é perfeita (pura), porque Deus é perfeito.
A grande questão no caso de Lúcifer é saber qual foi o estímulo externo que ele teve para cometer o primeiro pecado. Supostamente não surgiu de dentro dele, pois todas as criaturas de Deus, em sua origem são perfeitas como Deus é. Em Ezequiel 28.15 está escrito que Lúcifer era perfeito desde o dia em que foi criado até o dia da sua iniqüidade.
A bíblia nos fala que Lúcifer quis ser igual a Deus. O que quer dizer com ser igual a Deus? De onde veio esta idéia na cabeça de Lúcifer, de achar que podia ser igual a Deus, sendo que não havia nenhum anjo ou algo criado que estivesse acima dele? Ele realmente achou que poderia ser Deus? Não penso que ele era tão ingênuo. Então, qual fator externo foi a faísca para estimular o pecado de Lúcifer? Eu diria: A criação do ser humano.
Quando Deus criou, ou então, anunciou na eternidade os seus planos de uma criatura com a imagem e semelhança Dele, Ele anunciou o fato de que uma criatura seria maior do que os anjos. Isso caiu como uma bomba para os ouvidos de um anjo tão belo e tão poderoso como Lúcifer. Até hoje discutimos o que realmente é a Imago dei, isso que chamamos de imagem e semelhança de Deus, mas o que não se discute é que só o ser humano a tem, e que nenhuma outra criatura, inclusive os anjos, teve este privilégio.
Quando Deus anuncia (ou cria) o ápice de toda Sua criação, o ser humano, ainda o criou com livre arbítrio (pelo menos Adão e Eva), igual aos anjos, mas com um grande detalhe: Jesus ofereceu a sua própria vida na eternidade para garantir a preservação do ser humano “caso” a raça humana escolhesse desobedecer a Deus. É isso que o apóstolo Pedro (IPe. 1:20) nos fala em sua carta. Isso foi demais para Lúcifer! Não pode ser! Alem de ter uma criatura acima dele, o próprio Deus garante sua preservação eterna.
Foi quando Lúcifer, “levado seu coração por sua formosura”, e um terço dos anjos celestiais exigiram perante o trono de Deus: nós queremos ser iguais a Deus, queremos ser a imagem e semelhança de Deus também.
E aí nos leva a grande questão: qual o pecado de Lúcifer? Isso explicaria o ódio que Satanás tem de nós seres humanos, e o texto de Apocalipse 12:10, que fala que ele é o acusador dos homens, que acusa de dia e de noite diante do trono de Deus. Acusa o que para Deus? Acusa de ter sido injusto com eles, os anjos caídos, pois, a final de contas, os seres humanos eram iguais a eles na transgressão!
Quando pensei em tudo isso, veio a sacada que achei estar correta: O pecado de Lúcifer foi querer ser igual ao homem!
Mas, depois, pensando bem, descobri que esta “especulação teológica” estava incompleta. Pois o mesmo texto de Apocalipse fala, um verso antes, “que agora veio salvação, o poder, e a autoridade de seu Cristo”. Como pode esta salvação? Pela autoridade do verdadeiro Adão, pois quem o expulsa do céu, segundo este texto, é o próprio Cristo por causa do sangue do cordeiro!
Então pude aterrizar em minha especulação teológica de descobrir o verdadeiro pecado de Lúcifer. Não foi apenas ser igual ao homem, a imagem e semelhança de Deus, o pecado de Lúcifer foi querer ser igual a Jesus Cristo encarnado, o verdadeiro projeto de Deus, o ser humano na sua essência. Isso talvez explique que, ao se frustrar em querer determinar ser à imagem e semelhança de Deus, Lúcifer se tornou o antiprojeto criacional de Deus, o anti-homem em sua plenitude, mais conhecido como o Anti-Cristo!
19.12.07
Natal: O Tabernáculo, o Templo ou o Caixote de madeira
No começo, como eram nômades no deserto, fizeram o Tabernáculo, que quer dizer Morada de Deus, eles colocaram arca da Aliança dentro, junto com outros objetos sagrados. Me lembro de ter tido aulas sobre o Tabernáculo, os detalhes são fantásticos, cada mínimo detalhe significava algo e, na nossa leitura cristã parecia apontar claramente para o Messias.
Deus aceita a construção feita por homens e desce para se manifestar e tabernacular com o seu povo naquela tenda.
Depois de algum tempo veio a monarquia e, uma tenda até que serviu no tempo do deserto, mas já não parecia ser um lugar bom, suficiente para Deus se manifestar, afinal de contas até o palácio do rei Davi dava de dez a zero na tal barraca de pano.
Por isso, decidiram construir um Templo, uma casa para Deus. Davi não poderia construir por ter a mão suja de sangue, mas seu filho Salomão construiu um mega templo, com madeiras importadas, muito ouro, mão de obra escrava, um Templo para ninguém botar defeito. E Deus mais uma vez aceita a construção de seu povo e se manifesta naquele lugar.
Após muitos séculos, o templo já tinha caído e sido reconstruído, o templo já estava corrompido pelos líderes religiosos e pela política. Deus já não aceitava mais o templo como a casa Dele, e foi para o deserto. Já tinha chegado a hora não apenas de uma manifestação como nas duas primeiras casas construída por homens, mas de uma forma única, a própria encarnação.
Foi quando um pastor pegou um caixote velho de frutas, arrancou a tampa, dobrou as pontas dos pregos para não machucar os animais, tentou arrancar o rótulo da feira que estava na caixa e adaptou como cocheira de seu curral. O mais incrível é que este caixote da madeira Deus aceitou para nascer.
A cena é incrível, o primeiro lugar construído por homens que Deus ficou e se manifestou plenamente ao homem foi em um caixote de madeira, uma cocheira.
O que diria Moisés, Davi ou Salomão ao ver está cena?
Ficariam indignados pela falta de sensibilidade do povo escolhido em deixar o próprio Deus em um lugar tão espúrio, tão simples e feio? Ou pensariam que, se soubessem que Deus aceitaria qualquer coisa, teriam gasto menos tempo e dinheiro nas casas que construíram?
Neste natal, podemos ter estes dois sentimentos ao olhar para Cristo naquela cocheira. Podemos pensar: sou igual ao povo na época de José e Maria, não estou preparado para Deus morar em mim, faço o mínimo para Ele. Ou podemos pensar igual aos grandes líderes judeus, vou fazer o melhor para que, aí sim, Deus venha habitar em mim e eu possa agradá-lo.
Pois nenhum destes dois pensamentos está completo, porque não entenderam o poder de quem veio morar na casa, Jesus Cristo. Não importa um templo gigantesco, uma tenda ou até um caixote de madeira, quem legitima se é a casa de Deus é o próprio Deus quando em sua misericórdia aceita o que oferecemos para Ele e transforma em Sua morada.
12.12.07
A Hermenêutica de Satanás X Hermenêutica de Cristo.
Ter uma hermenêutica errada seria como se você tivesse tomado uma picada de uma serpente venenosa e lhe restasse pouco tempo de vida e, agora você se encontra frente a dezenas de remédios do depósito da fazenda e na sua mão a receita do único remédio que pode te salvar, mas você não consegue interpretar o que está escrito no papel. E com isso, você arrisca, tomando o remédio que “acha” ser o que está escrito. O problema é que se você errar o chute, você vai morrer. Em se tratando de interpretação bíblica, não tem como basear a nossa vida em achismos.
Citar a bíblia para afirmar uma verdade sua não quer dizer nada demais. Gostaria de tirar como base alguns princípios que encontrei na hermenêutica usada por Satanás e por Cristo no episódio da tentação no deserto (Mt.4:1-11).
Quando Satanás tenta Jesus no alto do templo, falando para Ele provar que é filho de Deus pulando lá de cima, Satanás cita Salmo 91:1 e 2, rogando as promessas do cuidado de Deus para os Seus filhos.
Se até Satanás pode citar e interpretar a bíblia, a grande questão é: quais são os princípios que vamos usar na nossa interpretação para não serem os mesmos princípios de Satanás e sim de Jesus?
Algo que me chama atenção é que Satanás só cita a bíblia em uma ocasião das três tentações, só quando o texto parecia estar ao seu favor. Ele usa exatamente a introdução que Jesus já tinha feito na resposta da tentação de transformar pedra em pão: “pois está escrito”. Creio que esta seja a dica de diferença entre Jesus e Satanás, Jesus cita a Palavra de Deus nas três respostas. A questão é que não é só na tentação, Jesus respira palavra de Deus o tempo todo. O único na história que poderia ter livre docência ao ensinar e viver, decide viver a sua vida toda debaixo do que tinha sido revelado. Satanás, porém, já tinha a idéia pronta, o que queria fazer e viver e foi até a bíblia para encontrar apoio na sua verdade. E este é um dos princípios da hermenêutica de satanás: o texto como pretexto para o que quer afirmar.
O interessante é que, quando o querer do interprete é maior que a bíblia, ele usa as bênçãos para si e as recomendações para os outros. Como é interessante ver que as três vezes que Jesus cita a Bíblia para responder Satanás, Ele interpreta para Ele mesmo e não para atacar satanás. Ele afirma que não só de pão ele vive, mesmo estando 40 dias sem comer. Não tentarás o senhor teu Deus, mesmo sabendo que Deus responderia os desejos do seu coração, e que ele deveria adorar somente a Deus. Todas as citações foram de encontro com Ele mesmo e não diretamente a Satanás.
Nas batalhas espirituais daqueles que tem o princípio do reino de Cristo, a palavra sempre passa primeiro por aquele que interpreta, diferentemente do acusador, que as usa sempre para atacar o outro, independente do que a palavra fala para ele mesmo.
Pensando bem nos dias de hoje e neste texto, o que estava por trás dos desafios que satanás colocou a Jesus? Fico pensando que Jesus poderia transformar não só a pedra em pão como o próprio diabo em pão. Não pularia do templo e pediria para os anjos pegarem, ria da cara de Satanás e sairia voando. E na hora de que Satanás pedisse para ele se prostrar, com um dedo ele apontaria para Satanás e o fazia beijar seu pé naquela mesma hora. Esta é a reação de um Jesus todo poderoso! Não é?
Mas se ele reagisse dessa forma, com tudo o que ele tem “direito”, ele teria caído nas três tentações de Satanás: prazer, poder e fama. Teria interpretado as verdades do Reino com os princípios da hermenêutica de Satanás. Mas Jesus, ao vencer as tentações, mostra que seu reino não teria os princípios deste mundo, e sim, princípios de renúncia, serviço e humildade.
Esta é a grande diferença entre a hermenêutica de Satanás e a hermenêutica de Jesus, uma parte da prerrogativa do que dá prazer, poder e fama e a outra, da prerrogativa do amor: renúncia, serviço e humildade. Que Deus nos ajude a viver os princípios da hermenêutica de Cristo.
6.12.07
Natal! Será que vou rezar?
Eu não fiquei doido. O que fiz foi usar de um artifício lógico chamado "reductio ad absurdum" que consiste no seguinte: para provar a verdade de uma proposição, eu mostro os absurdos que se seguiriam se o seu contrário, e não ela, fosse verdadeiro. Eu demonstrei o absurdo de se celebrar um líder vegetariano de hábitos frugais com um churrasco.
Uma homenagem tem de estar em harmonia com a pessoa homenageada para torná-la presente entre aqueles que a celebram. Uma refeição, sim. Mas pouca comida. Comer pouco é uma forma de demonstrar nosso respeito pela natureza. Alface, cenoura, azeitonas, pães e água.
Escrevo com antecedência, hoje, 27 de novembro, um mês antes, para que vocês celebrem direito. A celebração há de trazer de novo à memória o evento celebrado. É uma cena: numa estrebaria uma criancinha acaba de nascer. Sua mãe a colocou numa manjedoura, cocho onde se põe comida para os animais. As vacas mastigam sem parar, ruminando. Ouve-se um galo que canta e os violinos dos grilos, música suave... No meio dos animais tudo é tranqüilo. Os campos estão cobertos de vaga-lumes que piscam chamados de amor. E no céu brilha uma estrela diferente. Que estará ela anunciando com suas cores? O nascimento de um Deus?
É. O nascimento de um Deus. Deus é uma criança.
O nascimento do Deus criança só pode ser celebrado com coisas mansas. Mansas e pobres. Os pobres, no seu despojamento, devem poder celebrar. Não é preciso muito. Um poema que se lê. Alberto Caeiro escreveu um poema que faria José e Maria, os pais do menininho, rir de felicidade: "Num meio-dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia: "Vi Jesus Cristo descer a terra. Veio pela encosta do monte tornado outra vez menino. Tinha fugido do céu..." Longo, merece ser lido inteiro, bem devagar...
Uma canção que se canta. Das antigas. Tem de ser das antigas. Para convocar a saudade. É a saudade que traz para dentro da sala a cena que aconteceu longe. Sem saudade o milagre não acontece.
Algo para se comer. O que é que José e Maria teriam comido naquela noite? Um pedaço de queijo, nozes, vinho, pão velho, uma caneca de leite tirado na hora. E deram graças a Deus.
E é preciso que se fale em voz baixa. Para não acordar a criança.
Naquela mesma noite, havia uma outra celebração no palácio de Herodes, o cruel. Ele tinha medo das crianças e mataria todas se assim o desejasse. A mesa do banquete estava posta: leitões assados, lingüiças, bolos e muito vinho... Os músicos tocavam, as dançarinas rodopiavam. Grande era a orgia.
É. Cada um celebra o que escolhe. Acho que vou fazer uma sopa de fubá que tomarei com pimenta e torradas. E lerei poemas e ouvirei música. E farei silêncio quando chegar a meia-noite e, quem sabe, rezarei?"
Reflexão interessante do Rubens Alves publicada na Folha de São Paulo, 27/11 sobre o Natal, celebração de festa e, porque não, silêncio?
1.12.07
O humor de Jesus.
Este argumento seria incoerente com o método que Jesus às vezes optou usar para falar do céu e do seu reino. O que estou querendo dizer é que Jesus usava muito humor para pregar.
Mas por que muitos de nós não vemos de cara o humor de Jesus?
Tirando o caso dos cearenses, o humor nunca foi algo fácil de passar para frente, principalmente em forma escrita. Esta foi a dificuldade dos escritores dos evangelhos ao ouvirem as histórias de Jesus, tiveram que escrevê-las.
Já deve ter acontecido com você alguma situação muito engraçada, onde você passou mal de rir, mas pouco tempo depois, quando você foi contar para alguém, não teve nenhuma graça e a pessoa não riu um décimo do que você riu na hora do fato.
Outra dificuldade é a barreira da cultura e do tempo. Canso de ver filmes de “humor” da Europa, EUA ou Japão e não consigo ver graça nenhuma, mesmo sabendo que foram filmes de sucesso em seus países. Ou, até com alguns filmes nacionais um pouco mais antigos, sinto um humor muito ingênuo. Em se tratando do texto bíblico, houve um afastamento que dificultou a percepção do humor nas histórias de Jesus. Mas, se repararmos, veremos uma forma de humor muito clara e descontraída nas parábolas de Cristo.
Quando Jesus ia contar uma história, mesmo que o assunto fosse delicado e tenso, vemos que as histórias dele não seguem a lógica normal, sempre tem um absurdo que o ouvinte, naquela época, tomaria um susto e provavelmente daria risada. Um humorista famoso definiu o humor como algo inesperado ou inusitado que acontece no nosso dia, e nas histórias de Jesus isso estava presente o tempo todo.
Uma história humorada, geralmente, usa o recurso de exagerar as coisas ou não seguir a lógica. Assim como a piada do homem na estrada com seu carro e leu na placa: cuidado curva perigosa a esquerda! E ao vê-la ficou com medo e decidiu evitar a curva virando para a direita. É claro que nas parábolas de Jesus a intenção final não era rir, pois suas histórias não eram piadas e isso eu queria deixar bem claro, mas Ele usava o humor em praticamente todas as historias que contava para mostrar os valores do Reino.
Imagine um camponês ouvindo Jesus contar que um semeador saiu jogando semente para tudo quanto é lado, algumas caíram na estrada, outras nos espinhos, e assim vai! E logo um gritaria lá de trás da multidão: Este semeador é doido, qualquer um sabe que tem que preparar a terra e colocar a semente com cuidado na vala preparada, pois a semente é cara. Ou, um pastor de ovelha ouvir que um pastor largou noventa e nove no deserto para ir atrás de uma, e um patrão que paga o mesmo tanto para alguém que trabalha um dia ou um hora! E assim vai: a mulher que da uma festa por achar uma moeda, o filho que pede da herança do pai vivo, o leproso (Lazaro) que vai pro céu e o rico (judeu) que vai para o inferno, um reino comparado com um grão de mostarda...
No mínimo, uma risada e a atenção, Jesus conquistava do publico, pois o humor de Jesus deixava a história muito mais interessante. Está certo que alguns, principalmente os fariseus, ao entender a profundidade da história, seu sorriso se tornava raiva, mas devemos entender que, à primeira vista, os absurdos das parábolas de Jesus eram engraçados.
Não acredito que Jesus usava o humor apenas para chamar a atenção do publico, ou para a turma rir um pouco mais, ou para tornar mais interessantes suas histórias. Jesus coloca o humor de forma especial no seu ministério de ensino. Acredito que Ele usava o humor em suas histórias de uma maneira profética, a fim de mostrar os valores do reino e apontar os valores invertidos dos religiosos que o perseguiam.
O humor das parábolas de Jesus pode ser a chave hermenêutica (de interpretação) para o começo da compreensão da lição de cada uma de suas histórias. Se entrarmos na história de Jesus pelo humor desconexo aos valores que temos, fica mais fácil entender que o semeador do evangelho não precisa se preocupar com o solo (coração) que vai receber a semente, pois a tarefa dele é apenas semear independente do solo que ele “acha” que é bom, ou que o pastor do Reino é aquele que entende que cada perdido vale o todo (os 100%) no reino de Deus.
Faça o exercício de ouvir as histórias de Jesus com mais humor, e logo perceberá que as parábolas farão mais sentido, não com a realidade, mas com os valores do reino.
Precisamos levar a sério a bíblia, levar a sério a sua interpretação e com isso levar mais a sério o humor.
Texto feito para o Blog "marcos botelho do JV"
22.11.07
Façam aos outros o que vocês querem que lhes façam?
Vou explicar melhor, quando vejo as brigas de namorados, reparo que na maioria das vezes eles estão praticando o versículo literalmente, e isso ao invés de unir, tem os separado cada vez mais.
Uma das grandes crises dos casais é que eles estão tratando os outros da maneira com que querem ser tratados, e é este pensamento que tem criado as grandes divergências nos relacionamentos, pois o texto, mesmo não parecendo, fala exatamente o contrário.
Não sei se é a regra, mas geralmente quando algum rapaz vem se queixar de seu namoro, eles se queixam que a namorada não dá espaço para ele, não deixa sair com os amigos e ter seu próprio tempo sozinho. Do outro lado, quando elas vem falar comigo, vejo que a grande reclamação é contrária, que eles não dão atenção para elas, não ligam para as sua vidas e não querem passar muito tempo com elas.
A grande crise que eu tinha é que ao perguntar como um deles tratava o outro, eles respondiam que gostavam muito um do outro, e que faziam para o outro o que gostariam que o outro fizesse para eles.
Hoje, para o espanto deles, eu falo que o que eles estão fazendo não é Bíblico e sim uma atitude egoísta, pois para entendermos o versículo não podemos interpretá-lo literalmente, e sim o espírito da lei.
Quando tratamos o outro da maneira que gostaríamos de ser tratado, partimos da premissa que todos são iguais e querem ser tratados do mesmo jeito, e isso não é verdade. Somos diferentes um dos outros, principalmente o homem da mulher. O versículo não esta falando da maneira, e sim do principio do tratamento, o amor.
Cada um sente (ou sabe) em si mesmo o que falta para ser completo pelo outro. Que não adianta chegar muito perto do outro, sendo que o outro precisa é de espaço, ou me afastar, já que o que a outra pessoa precisa é de proximidade.
Temos que tratar os outros de maneira a completá-los, assim como gostaríamos de ser completos pelo outro.
Em um primeiro momento, vamos fazer não o que nos queremos e sim o que o outro quer e precisa. Isso requer muita humildade e abstinência de sua vontade. Mas, em um segundo momento, com o tempo, você começa a colher o fruto de uma pessoa que está completa em você e que abre mão de sua vontade para satisfazê-lo(a) da maneira que você espera.
O homem e a mulher não pensam e se comportam de maneira igual e é por isso que quando ele a trata da maneira que ele gostaria de ser tratado e não da maneira que ela gostaria, ela vai se abrir com uma amiga que a apóia, porque elas pensam de forma igual. E da mesma maneira acontece com os homens.
Muitas vezes amar é abrir mão da sua vontade, para fazer o outro feliz. Tem uma música do Djavan que fala “vem me fazer feliz porque eu te amo...”. Como diria minha namorada: este cara não sabe direito o que é o amor, pois se soubesse falaria “vou te fazer feliz porque eu te amo!” Então o que é o espírito de fazer ao próximo o que você gostaria que fizesse com você: Amar o próximo de tal forma que a pessoa se sinta completa assim como você quer ser completado.
5.11.07
Dezipando da Bíblia
Os seminários geralmente nos ensinam que logo após estudarmos um texto bíblico devemos sistematizá-lo para depois expô-lo em um estudo ou pregação. Com isso, cresci acostumado a ouvir dos pregadores, depois de uma breve introdução, uma mensagem cheias de pontos, passos e tópicos.
Um dos resultados de uma mensagem muito sistematizada é que pode fazer com que o público não entenda o texto, mas sim o resultado, a conclusão, a sistematização do texto. Desta forma, o público não aprende a pensar no texto, mas apenas a digerir o que foi colocado.
Corremos o risco de o grande foco ficar nos pontos e não no texto em si e, o interesse com a palavra pode cada vez mais diminuir, pois o texto fica tão distante da nossa realidade e, apenas na cabeça do pregador é que ela faz sentido com o nosso cotidiano.
Certa vez, conversando com um amigo e mestre, Ariovaldo Ramos, ele falou para mim que “o grande problema de interpretação da bíblia é que os intérpretes não entendem que a Biblia é um texto zipado”. E essa frase ficou na minha cabeça por anos até eu entender, desenvolver melhor a idéia e começar a aplicar nas palestras.
Uma definição particular de “Zip” é que ele é um programa de computador que compacta de tal forma outros programas, fazendo com que eles fiquem mais leves e caibam em lugares onde não caberiam normalmente.
É interessante pensar que a mensagem de Deus, como João falou no fim do seu evangelho, não poderia caber nem em sonhos dentro de um só livro, pois não haveria livros suficientes no mundo para escrever tudo que Ele fez e falou.
Por isso, o Espírito Santo, através dos escritores, fez uma seleção e “zipou” dentro de uma coleção de livros chamado bíblia. É muito importante lembrar que quando se “zipa” um texto, ele continua completo e com tudo do original, apenas fica compactado para caber em um recipiente.
Se apenas jogamos o texto com um pouco de contexto, e logo entramos nos tópicos, o público compreende o que pregador mandou fazer, mas não entende o que, de fato, aconteceu na passagem. Com isso, o mais importante não é o texto e sim o pregador.
Precisamos, como intérpretes da bíblia, aprender a “dezipar” o texto bíblico em nossas leituras bíblicas ou mensagens para que possamos entender o que realmente está acontecendo no texto.
A grande pergunta neste ponto do pensamento é: como podemos “dezipar” o texto bíblico? Qual ferramenta usar para isso? Eu diria: a sua imaginação! C. S. Lewis falou que a razão leva a verdade e a imaginação ao sentido de um texto.
Muitos textos bíblicos, como o evangelho, por exemplo, se preocupam em narrar os fatos, mas por estarem limitados na forma de texto (letra), não conseguem expressar por completo os sentimentos, os detalhes, o que causou certas reações. Isso cabe ao leitor. E ele só consegue remontar os fatos e dar sentido usando sua imaginação.
É necessário usar a imaginação, o que é diferente de viajar em idéias que não estão no texto, pois só estamos “dezipando” o que está contido na bíblia. E, principalmente, como em tudo na vida, temos que lembrar que a orientação do Espírito Santo é fundamental para não cometermos erros.
Podemos até entender em nossas mentes uma poesia de salmos sistematizada, mas só faz sentido e cai no nosso coração se ela for declamada, cantada. Se o começo do Salmo 23 não se tornar um campo aberto bem verde cortado por um rio de águas tranqüilas, com um senhor sentado em uma pedra, bem atento com um cajado na mão, posso até entender que Deus cuida de mim, mas não terei a consciência da beleza com que o salmista descreve o cuidado deste pastor.
No século XX o bom pregador era alguém que sistematizava bem os textos bíblicos, mas no século XXI o desafio é diferente. Um bom intérprete é um contador de histórias, alguém que expõe o texto colocando os detalhes e, assim, dando vida para que o público entenda o evangelho, a História.
Se aprendermos a “dezipar” o texto, iremos além de ensinar os princípios bíblicos para vida, daremos mais vida ao texto e com isso conseguiremos restaurar o amor pela leitura bíblica.
Texto feito para o Blog "marcos botelho do JV" 01/11/07
24.10.07
Um Jesus que é café com leite.
Por volta dos meus 10 anos de idade, quando ia jogar bola na escola, sempre tinha alguém mais novo que queria jogar, mas não era compatível com os outros meninos. Tenho que admitir que eu já fui um desses também. Para os times não ficarem desiguais, a gente colocava aquele menino a mais no time e fala que ele era café com leite.
Não sei de onde veio esta expressão, mas, neste caso, significava que para ele as regras não eram válidas, não importa o que ele fizesse, pois no final das contas ele e nada era a mesma coisa.
Muito tempo depois, fui para o seminário e, nas discussões cristológicas, encontrei uma turma com uma opinião acerca de Jesus diferente da que eu tinha.
Eles viam Jesus como um Super Homem e eu via Jesus com um homem e como Deus na mesma pessoa. Deixa-me explicar melhor: eles acreditavam que Jesus era o melhor em tudo, se ele fosse um cientista seria o melhor de todos os tempos, se ele fosse um corredor seria o mais rápido, se ele fosse um empresário venderia muitos livros, pois seria sempre o melhor.
Eu nunca vi Jesus desta maneira, nem li em nenhum lugar que as peças que ele fez como carpinteiro eram tão perfeitas que valiam ouro. O Jesus que li na Bíblia nunca se destacaria nestas áreas, pois era um homem normal, ele se destacou em coisas que o mundo empresarial não valoriza muito: no amor, na compaixão, na santidade, nestas áreas Jesus era o melhor e não, por exemplo,
Mas o grande problema que percebo nesta visão do “Jesus super homem” é o efeito contrário que ele gera no final, pois se Jesus era mesmo um Super Homem, e tudo Ele podia fazer, então tudo que Ele fez não pode servir de exemplo para nós, pois não somos super humanos.
É como se eu falasse que temos que ser corajosos como o verdadeiro “Super Man” e enfrentarmos os bandidos armados de peito aberto. Você logo me responderia: Pera ai, não vale me comparar com o “Super Man”, ele é de aço, assim até eu!
Lembro-me de estar confrontando um amigo e ele me perguntou se praticamente todo mundo pecaria nisso que ele havia feito e eu respondi que não, Jesus não pecou. E para o meu espanto ele me respondeu, mas Jesus é Jesus!
No final das contas este amigo pensava igual aquela turma. O que ele quis dizer é que Jesus é Deus, é Super Homem e, desta forma, Jesus Cristo seria café com leite.
O fato é que a maneira com a qual vemos Jesus reflete direto no nosso comportamento. E se vemos a figura de Jesus como um super herói, cheio de super poderes, o efeito da nossa intenção em “exaltá-lo” se inverte e logo chegaremos à conclusão de que Jesus não vale como paradigma de vida, pois ele é café com leite.
Texto feito para o Blog "marcos botelho do JV" 24/10/07
8.10.07
“Eis que vos digo, meu jovem...”
Mesmo tendo crescido dentro de uma igreja histórica e sendo doutrinado por pastores de fala reformada, nunca tive a dificuldade de aceitar e acreditar que Deus fala particularmente com alguns, ainda hoje, através de profetas. Não acredito que isso necessariamente vai contra a doutrina que a bíblia é a revelação perfeita e completa do evangelho de Jesus.
Mesmo acreditando, sempre fico com pé atrás quando me deparo com aquelas profecias gerais, estilo "tarô gospel", que podem acontecer com qualquer um em qualquer lugar.
Profetadas como: "Deus tem preparado maravilhas para alguém nesse culto!" Mas não é desse tipo de "profetada" que gostaria de falar, e sim daquelas que vem direto do Pai.
Mas mesmo com as verdadeiras profecias algo sempre me incomodou nos mensageiros dos nossos dias, o modo pelo qual eles levam a mensagem. O inabalável padrão com que começam a maioria das revelações: "Eis que vos digo, meu servo..."
Não entendo o porque Deus falaria desse jeito em pleno século XXI. O que aconteceu com o Deus atemporal no qual nós acreditamos? Ficou preso aos anos 50? Por que Deus não pode falar assim: "Olha meu amigo, tenho uma mensagem para você..." ou: "ô cara, se liga! Escuta aqui..." ?
Alguns poderiam falar que estou tentando vulgarizar a mensagem de Deus. Mas acredito que o problema é mais profundo do que este argumento, ou será que nós acreditamos que Deus só fala na linguagem revista e atualizada? Por que será que a bíblia na linguagem de hoje nunca se popularizou, sendo que é muito mais simples e fácil de entender?
Como disse acredito que o problema é outro, um reflexo de um preconceito evangélico com a juventude. Penso que ainda temos uma mentalidade na igreja de que o novo é profano e que o antigo é sagrado. Que tudo que é novo é profano, assim como a linguagem moderna, as gírias, as roupas, os estilos, ou seja, os jovens. É isso mesmo, no fundo é isso que muitos dos nossos líderes nos passam em suas atitudes e em suas mensagens, que as coisas antigas são sagradas, mas que as novas, assim como o jovem, são profanas.
Acredito na sabedoria dos senhores e senhoras das nossas igrejas, e que devemos ouvi-los mais do que fazemos hoje, mas agir como se nós ou nosso jeito não passasse de um jeito profano vai contra a própria bíblia. Textos como "aproveitem o dia da sua juventude, antes que venham os maus dias" ou "jovem, eu falo para vocês porque vocês são fortes", entre outros, mostram claramente que Deus é a favor também dos jovens e do seu jeito de ser.
O pensador Nietzsche acreditava que Deus não passava de uma projeção de nós mesmos, dos nossos jeitos e peculiaridades, e que por isso ele era a penas uma imagem de nós e não um Ser independente. Pois a Palavra Dele nos diz exatamente o contrário, que nós somos a imagem Dele e que Deus se inclina quando quer se revelar a nós, humanos, se limitando até em nossa linguagem falada limitada.
Sei que quando minha amada avó Maria senta na velha cama e fala com o seu Senhor amado de anos de caminhada, Ele ainda responde na boa e velha linguagem dos anos cinqüenta, pois este é o linguajar que fala ao seu coração. Mas também creio em um Deus com um linguajar do nosso tempo, rápido e forte, assim como os jovens são. Um linguajar que fale igual ao nosso.
Por isso preste bastante atenção, pois tenho uma mensagem para você: Eis que vos digo, meu servo: "Eu, teu Deus, também falo na linguagem de hoje, na linguajem moderna, no linguajar dos jovens".
1.10.07
A Bíblia deve ser a imagem ou os óculos no olhar do artista?
Todos os artistas cristãos se encontram, mais cedo ou mais tarde, em uma encruzilhada em sua arte, um conflito hermenêutico moderno. Sejam os numerosos maestros e compositores, os poucos escritores e diretores de peças e filmes e até mesmo os pintores e os extintos escultores os profanados por nós protestantes.
Todos, sem exceção, na hora de fazerem sua arte se deparam com a grande questão: a bíblia, a palavra de Deus, a qual tem a revelação que pode transformar o mundo, é a imagem final ou os óculos no olhar do artista?
Por muito tempo entendemos que a bíblia é a fonte das coisas que devemos produzir, pois ela é a palavra de Deus e nela contém o que precisamos para viver. Podemos dizer que ela possui a verdadeira inspiração para a arte. Por isso, se queremos produzir algo que reflita a vida que há em nós, devemos produzir o que nela contém. O tempo e a distância entre nós e a bíblia é absorvido por um óculos chamado contextualização, que traduz para os nossos dias e torna palpável para os que se defrontam com este tipo de arte.
Parece que todo artista, principalmente cristão, não quer fazer arte pela arte, mas arte para a vida. Ou seja, o artista com esta visão de hermenêutica, cria a sua arte, bela ou não, a partir da fonte (imagem) chamada Bíblia e coloca seu talento, suas verdades, seu contexto como óculos para facilitar o entendimento das pessoas a respeito de sua arte.
Este tipo de ordem hermenêutica tem sido aceita por anos pelos pregadores. Eles estudam a imagem (o texto) e com os óculos modernos interpretam para o povo a palavra. Porém, é preciso lembrar que eles não estão fazendo arte, pelo menos o que se entendia como pregação.
Mas com a queda do teocentrismo e a valorização do indivíduo e da sua cultura, outra visão de hermenêutica tem ganhado campo entre os artistas cristãos, onde a fonte (imagem) da arte a ser lida e retirada é o ser humano com sua cultura, seu cotidiano e o meio onde vive. Arte se tira desta figura, pois ela é real e está mais palpável para todos. Mas e a bíblia, com a sua fonte de vida, onde fica? Ela serve como os óculos da interpretação artística, ela é a julgadora de valores e de vida da figura. Com ela podemos extrair o belo, a vida de praticamente tudo ao nosso redor, pois só passa pelas lentes o que é vida.
Desta forma, toda sociedade, tudo que é cotidiano, comum, pode ser transformado em arte que gera vida. As músicas, as histórias, os quadros e imagens podem ser imagens do homem no olhar de Deus.
Estes dois caminhos são totalmente diferentes, mesmo que a finalidade da arte seja a mesma, a de gerar vida, o caminho traçado é outro. A mesma diferença entre arte cristã e arte feita por cristãos, revelação geral é a fonte e revelação especial a lente julgadora (ou vice versa).
Qual das duas valoriza ou defrauda a bíblia? Qual delas a coloca como a única fonte de inspiração e qual a coloca como o único valor de medida para as inspirações e artes humanas?
Essas são respostas que cada artista deve trazer ao seu coração antes de escolher qual caminho traçar, se é que ele já entendeu que o final deve ser o mesmo, gerar vida com a sua arte.

