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22.7.10

Os Urubus Gospels da Internet

Tenho visto essa categoria aumentar a cada dia, e tenho que confessar que preciso lutar contra mim mesmo para não tornar-me um deles!

Os profetas sempre tiveram um papel fundamental no judaísmo e, no cristianismo, são como torres de vigias, quase nunca se encaixam nos padrões dos “sacerdotes” e estão lá para falar na cara os erros dos falsos profetas, sacerdotes, intérpretes. Os erros do povo de Deus.

Mas existe uma grande diferença entre um profeta e um cara que só gosta de criticar, o profeta é um cara que não se conforma com o erro, mas que ama muito a quem ele está criticando.

Certa vez ouvi a história de uma profetiza que entrou no gabinete pastoral e falou: Pastor, Deus vai destruir a nossa cidade esta semana por causa dos nossos pecados!

O pastor se levantou e olhou nos seus olhos e declarou: Isso que você esta profetizando é falso! E ela com os olhos arregalados perguntou o porque ele falava isso. Ele respondeu: Porque se você fosse profeta de Deus e esta mensagem fosse dele, você falaria isso com lágrimas nos olhos!

Nem sei se esta história é verdadeira, mas ela ensina algo que é muito verdadeiro: o profeta sente dor em mostrar os erros dos da sua casa. Não é prazeroso para ele, ele o faz porque Deus mandou e não tem saída, ele tenta sempre trazer o conserto e a reconciliação.

Com a internet, a voz dos que não eram ouvidos ganhou uma chance, mas com esta chance veio todo o tipo de “profeta” e frustrados religiosos.

Se você varre a sua casa e joga o lixo fora, você é uma pessoa que está se importando apenas coma a casa limpa. Mas se você vai com o seu lixo até o lixão e fica por lá observando os outros lixos, aí então você deixou de se importar com a casa e se encantou pelo lixo.

É isso que tenho visto em alguns blogs, vídeos, twitters aqui na internet. Pessoas que já saíram de casa para morar no lixão, onde ficam mexendo nos lixos gospels para encontrar os mais fedorentos e guardar para sua coleção. Assim, ficam o tempo todo mostrando aberrações gospels e se divertindo com o que Deus se entristece.

Apenas Urubus gostam de ficar o tempo todo em lixões ao redor das carniças. Este tipo de material não traz vida, não traz mudança social e religiosa, mas sim entretenimento bizarro, e isso os profetas nunca fizeram.

Tenho que confessar, eu sou por criação um cara muito crítico, mas não quero transformar este blog, meu Twitter, minhas peças ou pregações em um lixão onde não me importe mais com a limpeza da casa e sim em sobreviver da carcaça de quem já esta morto. Deus me ajude a criticar com amor e a não perder o foco! 

29.6.10

A ignorância é prazerosa

Eu sou daqueles que pirou quando assistiu Matrix pela primeira vez no cinema em 1999. Que pena que os outros dois foram ruins e acabaram estragando a imagem do primeiro filme, que é praticamente perfeito.

Nunca me esqueço de uma cena num restaurante onde o personagem Cypher, que está traindo os da resistência, pega um pedaço de carne e fala: “Eu sei que este pedaço de carne não existe, mas a Matrix diz ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso. Após nove anos, sabe o que percebi? A ignorância é maravilhosa...”

Essa cena descreve a pura verdade, a ignorância é prazerosa e cômoda, muitos querem continuar sendo iludidos para continuarem na zona de conforto.

Sempre tive dó desses músicos com ouvido absoluto, já pensou? Eles não curtem uma música como os outros, nem conseguem comer em restaurantes com música ao vivo, pois vão sempre estar incomodados com uma semi-tonada que alguém der. Mas eu, pelo contrário, posso “curtir” a música se estiver razoavelmente aceitável para a maioria.

Meu pai, por ser desenhista, me confidenciou certa vez que sempre que vai visitar alguém fica incomodado o tempo todo com os quadros “tortos” da parede. Mas a maioria das pessoas nem tinham, sequer, reparado nos quadros.

Foi assim que aconteceu comigo e com muitos que conheço, quando começamos a ler a bíblia e comparar com o que vivemos e temos visto.

Não dá para aceitar, é como se o quadro estivesse torto ou os instrumentos desafinados. Não conseguimos ficar calado, precisamos falar e mostrar que muita coisa que estamos vivendo não tem nada a ver com o evangelho.

Mas o que tenho reparado é que uma parte dos que estavam na ignorância decidem voltar para ela, pois o conhecimento gera uma responsabilidade que eles não querem carregar.

Karl Marx tinha uma boa parte de razão quando falou que a religião era o ópio do povo, pois assim como o ópio, certas teologias, mesmo sendo mentirosas, tiram da realidade a pessoa e criam uma neblina de ilusão prazerosa.

Acreditamos que se alguém conhece a Verdade, ela vai libertar. Não só do pecado, mas do legalismo, de uma religião opressora, de um sistema político corrupto, de uma tradição morta.

Mas para isso temos que ter coragem e responsabilidade de escolher o que não é o mais prazeroso e nem o mais cômodo, para ficar com a verdade.

Em uma sociedade hedonista, vejo cada vez mais pessoas abraçando e valorizando a ignorância, dizendo: Eu sei que é mentira essa teologia, mas como a ignorância é prazerosa...

11.3.10

O contrato social para o desencargo de consciência.

O peso na consciência não vem apenas pela memória de ter feito algo errado, mas também é muito forte quando sabemos, mesmo que lá no fundo, que não estamos fazendo a coisa mais correta.

Olhar para Jesus, seus discípulos e os heróis da fé e para a vida radical que viveram , acaba gerando em nós um desconforto e um pensamento: como é que estamos vivendo as nossas vidas?   Vivemos mesmo esta missão ou já terceirizamos?

O  pior é que, com a potencialização do capitalismo e o espírito de revolução industrial onde todos têm um papel específico no processo, aprendemos afazer apenas o nosso trabalho para os outros e pagamos os outros para fazer o nosso trabalho. Deixe-me explicar.

Teoricamente, a bagunça da minha casa, pagar minhas contas no banco, cuidar da minha segurança, ir buscar água para beber no fim do dia e outras coisas, são responsabilidades, tão somente, minhas.

Mas com o desenvolvimento das cidades veio o pensamento de que eu tenho que me preocupar apenas com o que eu decidi ser a minha função, o meu trabalho, mesmo que não tenha nada a ver comigo e, que devo pagar para os outros fazerem o resto para me deixar bem.

Por isso pagamos alguem para limpar as nossas casas, taxas em bancos para pagar a nossas contas, condomínios para nossa segurança, a companhia de água para termos água em casa, e muitos outros serviços. No fim do mês vemos que o que recebemos em dinheiro do nosso trabalho, que fazemos para os outros, bate com o dinheiro que pagamos para os outros fazerem o nosso trabalho. E nessa loucura moderna vamos vivendo.

Não estou dizendo que isso está errado, eu já cresci neste círculo doido, que acredito ser possível frear, mas impossível reverter. E nem sei se de outro jeito seria melhor.

Vivemos pagando para os outros fazerem o que é nossa responsabilidade e com isso não nos pesa a consciência de não fazê-las, pois afinal de contas pagamos, e pagamos caro.

Esse tipo de pensamento faz parte da religião desde os primórdios, mas nos últimos tempos tem sido potencializado através de  uma espécie de contrato social para o desencargo de consciência.

Já que eu não evangelizo mais, levamos as pessoas para a igreja para serem evangelizadas pelo pastor, afinal de contas eu dou o dízimo. Já que eu não ajudo o próximo, contribuo com o ministério de ação social, já que eu não vou sair do meu comodismo para fazer missões, “pago” para todo missionário que vem aqui na igreja para eles irem.

É lógico que isso não é uma regra com todos que contribuem, mas é algo a ser pensado, pois é esse o espírito capitalista!

Ninguém fala nisso nas igrejas, pois os dois lados, teoricamente, estão satisfeitos, os que pagam e são aliviados a consciência e os que recebem para viver fazendo as suas  tarefas e as dos outros. Mas isso não quer dizer que está correto. E assim vamos vivendo um contrato social para o desencargo de consciência. Mas se fosse diferente, como seria?

6.1.10

Não assisto mais filmes “evangélicos”


Gosto muito de filmes, gosto de sentar e me divertir na frente de uma grande tela com um bom home theater. Dependendo da companhia, posso passar um bom tempo discutindo sobre a visão do diretor, roteiro, etc.

Um tempo atrás algumas pessoas começaram a me falar que tinha uma igreja nos Estados Unidos que estava fazendo filmes de qualidade e que eu deveria assistir. Falei não de cara, pois tenho medo que os evangélicos façam com os filmes o mercado paralelo que fizeram com as músicas.

Até que um dia alguém me emprestou um filme e pela capa pensei: Vamos lá, deve ser bom!

Mas, infelizmente, não foi nada bom. Não pela qualidade do filme, que é razoável, e nem pelas falas, que são fracas, mas pela história que, na essência, não tem a ver com o evangelho, é apenas uma repetição de um roteiro que deu certo lá fora.

O filme é a história de um treinador falido, com um carro que não presta e, que não pode ter filhos, e sei lá mais o que. Um dia ele aceita a proposta de treinar um time de futebol do colégio e tentar a sorte no campeonato importante da região.

Como todo filme, ele encontra muitos obstáculos e gente querendo derrubá-lo. Mas o diferencial é que ele decide evangelizar o time e colocar os princípios evangélicos nos garotos.

Tenho muitos amigos missionários/treinadores que trabalham com esta visão, e sei que esta estratégia é muito boa se for aplicada com discernimento e sabedoria. Pois assim como aí fora os treinadores sempre enfatizam a importância do treino e também da escola, nós, cristãos, colocamos mais uns pontos: Que um atleta completo tem que estar bem fisicamente, mentalmente e espiritualmente.

O que me irrita nos filmes “evangélicos” é que eles pegam exatamente o mesmo roteiro dos outros filmes, mas mudam a carcaça. Da garra, esperança ou sei lá o que para a religião evangélica.

No fim do filme, depois de muita luta e perseguição, pois o treinador colocou disciplinas espirituais nos garotos, eles chegam à final do campeonato em um último jogo emocionante. 

E, para o meu desespero, eles ganham o campeonato de um time muito mais forte, ele ganha uma caminhonete novinha animal e, adivinha o quê mais? A esposa dele fica grávida. E os desavisados gritam aleluia!!!

Sei que filmes precisam ter final feliz, mas não é esta a lógica do reino, não foi assim que aconteceu com o mestre. Ele fez tudo certo e foi traído, abandonado e morto.

Podia sim ter um final feliz. Podia ser diferente sim, eles poderiam ter perdido aquele jogo, o treinador ter perdido a cabeça e gritado dentro de seu carro velho para os garotos que não adiantou nada. No outro dia ele indo para a escola veria um estudante que reconciliou com o pai, outro que parou de brigar na rua. Quem sabe os meninos no outro dia treinando bem cedo no campo e falando que a derrota mostrou que o jogo não é tudo e que o que aprenderam vão levar para sempre! Sei lá!

Quando encontramos  Cristo não jogamos melhor futebol, nem ganhamos dos que odeiam o evangelho. Aprendemos com o mestre o valor da humildade, do amor, da ética.

Assisto muitos filmes essencialmente cristãos, que me fazem repensar a vida e que exaltam o amor e não a competição, a humildade e não a vitória. Estes eu assisto, mas os filmes denominados “evangélicos”, estes eu não assisto mais.

5.11.09

Na boca de quem?


Acabo de ler um artigo de Arnaldo Jabor falando sobre as dezenas de artigos na internet que são escritos em nome dele. Lá ele destila toda a sua ira e declara que nunca terá um Twitter, mesmo já tendo um com milhares de seguidores, inclusive eu.

O que me chama a atenção no artigo dele é que ele odeia os textos e acha uma imbecilidade, mas que as pessoas o param na rua para elogiar, e mesmo ele negando o texto, as pessoas não acreditam e falam que é modéstia dele.

Lembro-me do meu pai contando quando ele compôs a sua primeira canção. Ele tinha muito medo de mostrar para os companheiros do JV, pois sabia que iam ridicularizar. Foi quando teve a idéia de não falar de quem era a musica, e ensinou no acampamento como se tivesse sido a tradução de algum conjunto de fora. A musica “Eu quero andar” foi muito cantada na década de setenta. Quando ele teve coragem de falar que eles podiam gravar, pois tinha sido ele quem tinha composto os amigos não acreditaram. Pois a musica era muito boa para ter sido feita por alguém que não era um compositor profissional.

Em uma era da personificação, do endeusamento dos líderes, da teofania nos apóstolos, o conteúdo não importa tanto, o que vale é: Isso foi dito na boca de quem?

Não importa se a musica, ou se a tradução é um lixo, foi a banda da Austrália, ou outro lugar, que a compôs. Não importa se o que ele fala é claramente uma jogada capitalista para ganhar dinheiro, ele é um homem de Deus.

Recordo-me um bom tempo atrás, de ir jantar com um conhecido que é apóstolos na igreja dele. Eu falava que estava incomodado com as mensagens de um certo evangelista estava fazendo na TV, pois a sua mensagem tinha mudado muito o conteúdo. Ele vira para mim e fala: “Você deveria ter vergonha Marcos, enquanto estamos comendo esta pizza ele provavelmente está trabalhando para levantar sustento para falar na TV no horário nobre.”

Mais uma vez, não importa o conteúdo, e sim a personalidade, o esforço de chegar lá. Se o que o cara fala é verdade, mas é um “Zé ninguém” ele está com ciúmes, ou querendo aparecer. O pior que as vezes é mesmo. Mas se o cara já tem um destaque, foi todo mundo que não o entendeu, mas ele está certo.

Nestas comunidades do Orkut de pastores de destaque, estou em uma ou duas de mestres que admiro. Estes dias em uma delas começou um tópico se o pastor tinha falado tal coisa ou não no púlpito. Começaram os ataques e defesas dos seguidores nervosos. Em uma briga que parecia que só tinha duas opções: ou ele falou tal afirmação e não presta mais, ou entenderam errado o que ele tinha dito e ele continua perfeito. A possibilidade de ele ter errado no que ele falou, mas vou continuar ouvindo, pois sei que ele tem conteúdo tirando este erro nunca foi cogitada.

O meu maior medo é que esse pensamento tem criado na nossa juventude. Pois hoje o jovem não gasta o seu tempo em buscar conteúdo no que vai falar ou o que vai escrever, porque não importa. Ele vai procurar prestigio e fama, porque se eles as tiverem não importa o que ele vai falar, tudo será aceito.

Vejo isso nos blogs e nas charges, se brincamos ou até criticamos um personagem bíblico ninguém reage, mas se fazemos o mesmo com o líder das igrejas, chove de e-mails e recados dos súditos indignados por tocarmos nos seus ungidos.

A personificação dos ministérios está criando uma geração acrítica, idólatra e imbecil!

12.10.09

Tbm naum vjo o avivamento vindo dos letrados


Tenho ouvido muitas reclamações sobre como os adolescentes, e agora os jovens, estão escrevendo “errado” na internet. Ouço que este novo jeito de escrever está estragando a língua portuguesa e criando uma geração que não sabe ler os textos que vou chamar de “clássicos”.

De alguns anos para cá, não é tão difícil encontrar na internet palavras como naum (não), tbm (também), vc (você) entre centenas de outras palavras que estão sendo abreviadas ou escritas como se fala, para facilitar agilizar a comunicação na net. E a perspectiva é de piorar com o fenômeno do Twitter chegando no país e “forçando” ainda mais as pessoas a escreverem abreviadamente.

Mesmo concordando que temos negligenciado o estudo da língua portuguesa e a valorização da nossa cultura e, também com a opinião que estamos entrando em uma geração que desaprendeu a desenvolver um pensamento com mais de um parágrafo. Pretendo dessa vez ver o outro lado da moeda, para sermos mais justos em nosso julgamento e vermos que este fenômeno não é de todo mal.

Minha crise com o português mais rebuscado veio da simples situação de que por um bom tempo da minha vida eu tentava ler o Antigo Testamento e não entendia quase nada. Pensava que a bíblia, principalmente o AT, era algo tão profundo que eu teria que estudar teologia para entender. Quando entrei no seminário, ao me deparar com outras versões e traduções, percebi que o meu problema na adolescência não era a teologia e sim o português. Pois a tradução que tínhamos na minha igreja era de mais de 50 anos e não estávamos falando a mesma língua.

Foi quando me veio a segunda pergunta lógica, que fiz para a professora de português do seminário: por que não se populariza a Bíblia Linguagem de Hoje? (na época não tinha Nova Versão Internacional). Quando ela de bate pronto me respondeu com outra pergunta: Se popularizar como os letrados (catedráticos) vão continuar dominando o povo?

Foi como cair o véu que me cegava, entender que a ignorância leva a escravidão, e que ela beneficiava quem estava no poder!

Na história, o dinamismo da língua, sempre incomodou quem estava no poder, e entenda o estar no poder como o que controla o conhecimento,com os estudiosos ridicularizando os que popularizavam a comunicação e os religiosos sacralizando o antigo (que já estava dominado) e profanando o novo, o desconhecido.

Foi essa a acusação aos rabinos, após o exílio, de estarem profanando as escrituras por traduzirem do Hebraico para o Aramaico a lei para o povo, assim também foi com o grego na septuaginta. O novo testamento foi rejeitado por muitos da sua época por ter sido escrito no grego do povo e não no clássico.Cinco séculos depois, a tradução da Bíblia para o Latim foi chamada de Vulgar (Vulgata), e não foi diferente com as traduções feitas após a reforma.

Sempre foi assim, era rejeitada a nova linguagem, considerada pobre e vazia, até que ela fosse dominada pelos poderosos, que a engessava e as controlava.

A tentativa de reforma da língua portuguesa, que vimos um tempo atrás, além de ser uma jogada econômica, foi um tapa buraco que não chegou nem perto da realidade do português que falamos hoje.

Você até pode não gostar na nova forma de escrever que a internet está trazendo com muita rapidez, mas acredito que em primeiro lugar ela é inevitável, pois a roda girou e a oportunidade da troca do poder esta bem a frente a todos com a net 2.0.

E para você que é cristão, não se espante se a reforma ou o avivamento vier desse novo jeito de pensar e escrever, pois foi assim que aconteceu na história do cristianismo até hoje!

17.9.09

Os Melhores da Terceira Divisão


Estes dias fui para a feira mais famosa de produtos cristãos aqui em São Paulo.

Lá eu vi de tudo: Chifre de cordeiro para unção, pipoca mágica, MissonCard o cartão de crédito para o seu ministério, Apóstolo que foi preso pregando em línguas, CD falando que conseguiu gravar a unção, faculdade teológica onde você faz a inscrição e ganha um celular, meninas de mini-saias vendendo livros, sem contar as dezenas de ministérios em cima de nomes e pastores bem produzidos. Já sabia que ia encontrar algo parecido, pois estamos vendo uma parte dos evangélicos no Brasil ir para este caminho faz um bom tempo.

Mas o que eu gostaria de falar é de um sentimento que tive ao andar pelo imenso saguão e olhar todos os expositores. As imensas lojas com uma decoração belíssima, o tapete vermelho nos corredores, a iluminação e efeitos visuais, os mega banners nos dão a nítida impressão que estamos na exposição do melhor que há no Brasil.

Muitas frases e títulos de CDs, DVDs e livros falando do quão bom é o produto e tal cantora, radio ou canal de TV.

Lembro-me de ter ouvido que alguns países, algum tempo atrás, fizeram uma jogada de marketing tirando todos os jogadores de tênis do ranking mundial (ATP), e fizeram um ranking interno no país, promovendo uma grande propaganda, abafando e descredibilizando o rankings da ATP. Pois perceberam que com esta manobra política, o país iria ganhar mais com o marketing, os atletas seriam melhores ranqueados e assim também ganhariam mais. E realmente esta jogada deu certo por um bom tempo.

Olhando o mercado gospel percebo a mesma jogada em muita coisa. Antes usávamos como desculpa a música para “adoração”, o filme evangelístico, mas cada vez mais percebemos que música é musica, filme é filme e palestra motivacional é palestra.

Fizeram um ranking interno onde nos canais de TVs e nas Rádios só passam o que está na proposta (financeira, é claro) do gospel brasileiro, onde todos ganham mais. Desde o produtor até os cantores, atores, palestrantes e empresas. Pois, afinal, não importa se a comida da lanchonete da esquina não é tão boa assim, vamos comer lá para ajudar o irmão.

Todos ganham, menos o consumidor cristão, pois pelo fato de colocarem na cabeça deles que só este pequeno círculo de “arte” e produto são os que ele pode consumir, baseado em um marketing agressivo de profanar quem não fechou contrato com eles, vão tornando cada vez mais medíocre o seu público e o fidelizando com produtos de terceira categoria.

Tirando este prejuízo catastrófico com os cristãos brasileiros, eles viciam o mercado deixando os artistas bons e de bom caráter que não querem se envolver com toda politicagem, à margem dos ouvintes, não por qualidade, mas por que não entraram no esquema.

É lógico que até no meio gospel existe gente com o material bom, mas o sentimento que temos é que estamos ouvindo as melhores músicas, da voz dos melhores músicos, as melhores revistas, peças, podcasts, livros, filmes, e quando caímos na real percebemos que são os melhores mesmo, mas que estamos na terceira divisão.

1.7.09

Vencedores que não ganharam


Na minha adolescência jogava basquete na escola, eu era ala-armador. Pelo menos achava que era, mesmo sendo banco. Lembro-me que, certa vez, minha escola tinha ganho o campeonato da minha cidade e estávamos jogando entre cidades. Naquela tarde fomos jogar em uma cidade rival, vizinha a nossa. Ia começar o segundo tempo e o técnico falou que eu ia entrar. Fiquei muito nervoso, pois tínhamos que ganhar aquela partida.

O basquete não é como o futebol que, quando vai começar, cada time fica de um lado da quadra, ficam todos misturados. Quando a bola foi jogada para o alto, o meu time pegou a bola, um foi passando para o outro e de repente o melhor do nosso time me olhou nos olhos e me passou a bola com tudo. Não pensei duas vezes, sabia que meu alvo era ganhar, por isso peguei aquela bola e sai em disparada em um contra ataque. Quando passei o meio da quadra e olhei para trás para ver onde estava o meu marcador, vi os dois times parados olhando para mim com um ar de quem não estava entendendo nada. Quando reparei estava correndo para a cesta errada, para minha própria tabela. Que vergonha foi a vaia que tomei naquela tarde.

Sempre me ensinaram que ganhar deveria ser o meu foco, até mesmo na igreja. Pois afinal de contas “somos mais que vencedores em Cristo Jesus”(Rm 8:37).

Sempre entendi que ser mais que vencedor, era ser um SUPER vencedor, um vencedor incontestável, um cara que ganha com uma vantagem incontestável. Mas o problema é que, não só no basquete, mas em todas outras áreas na minha vida eu não era assim. Ao contrário, era mediano em muitas e em outras, um desastre.

Com esta pressão, focava minhas forças ainda mais na vitória, em ganhar e ser o melhor. Para o meu desespero, em meus pontos fracos, me afundava ainda mais.

Foi quando li uma outra passagem de Paulo em que, no final de sua vida, ele fala “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. (IITm4:7)”. Preste atenção, pois Paulo não fala ganhei o combate, ganhei a corrida e movi montanhas com a fé.

Ai eu entendi, que para Paulo, ser mais que vencedor é ser vencedor na derrota, nas dificuldades.

Nunca me esqueço quando o maratonista Vanderlei Cordeiro foi agarrado por um fanático nas olimpíadas e perdeu a medalha de ouro. Todos ficaram indignados e reclamaram muito, queriam até uma segunda medalha de ouro para ele. Mas ao ser entrevistado parecia que nada tinha acontecido, ele estava tão feliz por ter chegado em terceiro lugar agradecendo a todos que tinham ajudado ele a chegar lá. É tão constrangedor e bonito a atitude de felicidade de alguém que acabou de perder.

Nos dois contextos Paulo está descrevendo perseguições, dores, momentos de humilhação e até derrota. Mas quando ele olha para o amor de Cristo Jesus percebe que mesmo com tudo isso, somos mais que os vencedores das corridas e das lutas, somos vencedores que não ganharam.

Se entendermos isso, não focaremos a nossa vida no golpe final da luta, tampouco em ter uma fé poderosa ou em chegar primeiro na linha de chegada. Mas sim em correr direito passo a passo fazendo a sua parte. Sem soberba, mas com o sorriso no rosto de quem já ganhou independente do resultado.

5.6.09

Evangelho brasileiro: Um pára-brisa estilhaçado


Uns dias atrás, eu estava dirigindo em uma auto-estrada quando o caminhão da frente fez com que uma pedrinha voasse e pegasse no pára-brisa do meu carro e fez um pequeno buraquinho no vidro. Quando ouvi o barulho tomei um susto, mas logo vi que não passava de um pequeno buraquinho, quase nada.

O problema é que de um buraquinho se tornou uma rachadura e, com o tempo só foi aumentando.

É interessante que o vidro não estilhaçou em cima de mim. Ele foi feito para, mesmo quebrado em várias partes, ficar preso um no outro. Mas eu já vi antes o que acontece com os pára-brisas rachados. Com o tempo, eles ficam em pequenos fragmentos de vidro, até chegar o ponto onde caem por completo. Como um pedaço inteiro!

Tenho a impressão de que algum caminhão jogou uma pedrinha uns 30 anos atrás no pára-brisa de nós, evangélicos no Brasil.

Desde a reforma, nós protestantes temos como característica as divergências de interpretação entre uns e outros. Acredito que isso aconteça pelo fato de termos livre acesso às escrituras.

Mas, nos últimos anos, confundimos o livre exame das escrituras com a livre interpretação das escrituras. E o que é pior, caímos em uma igreja com líderes personalistas, uma igreja não mais centralizada na palavra, mas nos líderes, pastores, bispos e apóstolos.

Nas últimas décadas novas igrejas estão brotando como ervas daninhas no Brasil. Os desavisados logo falariam um ALELUIA bem forte e dariam um sorriso por estarem presenciando o avivamento tão esperado.

Mas, infelizmente, não é esse o nosso caso. Quando vamos observar, o surgimento das novas igrejas, em sua grande parte, é fruto de divisões de líderes cegados por sua vontade e seus sonhos e que não conseguiram permanecer em uma igreja na qual eles não estavam no controle.

Esse movimento gerou igrejas, de certa forma, mais contextualizadas aos nossos dias, mas por outro lado, igrejas cercadas por líderes com mega egos, que tratam as igrejas que fundaram como se fossem deles, se colocando no lugar do Espírito de Deus.

Alguns, na década de 70 e 80, podiam até dizer que era um pequeno movimento paralelo a instituição eclesiástica, algo insignificante como uma pequena rachadura, mas vemos que depois de algumas décadas a igreja evangélica brasileira se fragmentou por completo em pequenos pedaços que se romperam um dos outros há tempos, mas que ainda não estilhaçou.

Hoje, falar em uma representatividade dos evangélicos brasileiros perante as autoridades e órgãos de comunicação é motivo de piada.Existem centenas de pastores que só representam os seus próprios impérios, os seus reininhos.

O grande problema é que se continuarmos dessa forma, assim como o meu pára-brisa, a igreja brasileira vai chegar ao seu limite de fragmentação e desunião, aí ela cairá por inteiro!

Deus tenha misericórdia de nós.

2.5.09

E os outros feios que não cantam?

Nestas últimas semanas o mundo da internet foi impactado com a Susan Boyle e sua maravilhosa voz cantando “I dreamed a dream”, surpreendendo mais uma vez os jurados do programa britânico Ídolos. Não foi a primeira vez que o programa usa um vídeo viral onde os jurados menosprezam o cantor por sua aparência e depois são surpreendidos pela apresentação, isso aconteceu com Paul Potts com mais de 30 milhões de views na net.
[Pode clicar na foto para ver o vídeo]

Fiquei emocionado com a Susan, assim como fiquei um ano atrás com o Paul, mas a pergunta que ficou no meu coração é: e os outros feios que não cantam?

Ta bom, eu sei que beleza é relativa, e graças a Deus por isso! Mas é lógico que estes vídeos só fizeram sucesso porque os dois participantes eram considerados de má aparência pela maioria.

Ficamos encantados com a voz deles e com as reações dos jurados, da platéia e até a nossa. Mas e os considerados feios por nossa sociedade que não cantam, não lêem, não conseguem passar um dia sequer sóbrios, as que vendem seu corpo?

Essas pessoas não vão nos surpreender e nos arrepiar nunca! Pois não tem nada de valor para oferecer, são pobres de espírito! São desprovidos de qualquer coisa que NÓS valorizamos!

E quando nós nos sentimos assim, desvalorizados e sem valor? Quando, ao contrário deles dois, desafinamos na vida quando não podíamos e somos rejeitados por todos.

Como é bom ouvir as palavras do mestre que diz: Bem aventurado são vocês que não tem nada de valor para o mundo. Pois mesmo vocês sendo assim provocam suspiros em meu Ser, e estarão comigo no meu reino. (Mt.5:3)

É tão bom saber que Deus nos ama simplesmente por sermos quem somos e não por habilidades ou posses.

Quando entendemos este amor e simplesmente agradecemos ao Pai, Ele, jurados dos jurados, se levanta e nos aplaude de pé, pois chegamos ao palco onde a única exigência é sermos nós mesmos, adoradores. Nada mais, nada menos!

10.11.08

A queda da Bolsa: Gloria a Deus ou misericórdia?


Um dos meus mestres, estes dias, em uma reunião, me pediu para orar junto com ele para Deus agir, pois a queda da bolsa iria fazer com que as agências missionárias, ONGs, missões e ajudas humanitárias perdessem os subsídios que os países da Europa e Estados Unidos costumam dar todos os anos.

Foi quando levantei a mão e perguntei: é certo eu orar por uma coisa com a qual eu não concorde? Aí expliquei para ele: este estilo de vida que os países de primeiro mundo escolheram viver, “the american way of life”, é a principal causa da miséria do mundo. Especialistas dizem que para cada cidadão do primeiro mundo viver em suas grandes casas, produzindo tanto desperdício, tendo carros luxuosos, entre outras regalias, cinco outras pessoas no resto do mundo precisam estar na miséria.

Ou seja, para eles viverem no luxo o mundo tem que viver no lixo. Não existe recurso natural no mundo para sustentar a vida egoísta e de desperdício que vivem os países do chamado primeiro mundo, principalmente os Estados Unidos.

Mesmo admitindo que nas grandes cidades aqui do Brasil estejamos caminhando para esta direção, eu não posso orar para Deus restaurar este sistema econômico que impuseram para nós, onde valorizam a especulação e exploram os mais fracos. Onde os ricos ficam mais ricos e os pobres mais miseráveis.

E para desencargo de consciência, com as migalhas que caem da mesa eles “dão” voluntariamente e com muito “amor” para ajudar os países pobres do mundo. É tão bonito ver na mídia o Bill Gates ajudando centenas de pessoas em uma campanha contra a AIDS na África, mas não vemos a exploração da mão-de-obra semi escrava que as grandes corporações estão assolando mundo a fora.

Finalizei meu discurso falando que a quebra da bolsa vai ser a oportunidade de tentarmos reconstruir um sistema econômico menos injusto, menos demoníaco. Pela primeira vez os ricos estão sendo penalizados.

Após minha fala sincera e inflamada, meu mestre de cabeça baixa me respondeu:

Concordo com tudo que você falou, mas mais uma vez na história, quem sofrerá mais serão os miseráveis. Pois quem tinha dez milhões vai ter três, mas quem tinha apenas as migalhas, não vai ter mais nada.

Pois é, amigos, como mudamos o nosso foco facilmente! No fim não orei para Deus abençoar ou acabar de vez com o sistema econômico do mundo. Orei para Deus ter misericórdia de mim, pois se até os cães tem direito às migalhas que caem da mesa, peço que Deus nos use para abrir mão da nossa parte que está em excesso, para que outros ao nosso redor possam ter o mínimo de dignidade.

Não pregamos contra a riqueza, só acreditamos que a riqueza de ninguém pode ser justificada com miséria do nosso próximo.

27.10.08

Os últimos dos Moicanos


Quando me formei no seminário há alguns anos atrás estava pronto para trabalhar ministerialmente com jovens. O meu sonho ia se tornar realidade, jovens trabalhando com e para outros jovens. Animar grupos de jovens nas igrejas, restaurar ministérios voltados aos jovens.

Afinal de contas, cresci ouvindo nomes de movimentos como Jovens da Verdade, Mocidade para Cristo, Aliança Bíblica Universitária, Jovens em Cristo, entre outras.

Mas qual foi a minha decepção, olhei para um lado e para o outro e vi que restaram poucos com esta visão. Senti que eu tinha nascido uma geração depois da que deveria realmente nascer.

O que aconteceu com os líderes de jovens da minha geração? Ou melhor, o que aconteceu com os jovens da minha geração? Refiro-me aqueles que nasceram entre 1973 a 1983.

Tinha percebido que restaram poucos ministério de jovens, muitos tinham sido absorvidos pela classe de adultos, outros eram grandes adolescentes com vinte e poucos anos e, outros tinham ido embora da igreja mesmo.

Certa vez, perguntei para um psicólogo qual era o maior problema que ele ouvia em seu consultório sobre a minha geração. Ele me respondeu sem hesitar: uma geração egoísta e infantil.

Explicou-me que a maioria das mulheres jovens que vão conversar com ele reclama de homens que não sabem se querem casar, comprar um carro ou um videogame. E mulheres que não concordam de seus namorados ou maridos exercerem um ministério voluntário na igreja, alegando que eles precisam se preocupar mais com o futuro financeiro dos dois.

Essas palavras bateram forte em mim, afinal de contas ele estava falando da minha geração, de mim também.

Realmente restam poucos líderes dessa geração, os últimos dos Moicanos.

Acredito que o problema é ainda pior, com o desaparecimento de minha geração e uma geração anterior ter se firmado como adultos líderes na igreja e uma outra geração mais populosa e forte chegando logo depois, a partir de 1985. Houve uma ruptura no elo de gerações.

Essa lacuna entre adultos e adolescentes gera divisões na igreja, pois não está havendo comunicação entre um e outro, já que quem faz isso é sempre a geração que está no meio das duas. Estamos vendo cada vez mais igrejas voltadas a uma programação só para adolescentes e outras igrejas voltadas só para os adultos.

Terrível ruptura no corpo de Cristo.

Choro por minha geração egoísta e infantil, por não haver mais quase ninguém que faz parte dela, nos acampamentos ou movimentos interdenominacionais, mas sempre me alegro muito quando vejo jovens, homens e mulheres entre 25 e 35 anos, que abriram mão de sua vida e se entregaram nas mãos de Deus e estão fazendo a diferença. Pois vocês são os últimos dos Moicanos!

20.10.08

Por que alguns de nós viram assassinos?


Estou muito indignado com tudo que aconteceu em Santo André - SP esta semana, indignado com o despreparo da polícia, com o que um jovem tomado por um ciúme pode fazer, com a impressa que o coloca ao vivo só para dar audiência no ar e ganhar dinheiro com as desgraças alheias, indignado de como é fácil encontrar armas neste país e, com a igreja, que não vai se manifestar por achar que não tem nada a ver.

A notícia me pegou longe de casa, estava pregando em um acampamento em Joinvile e foi um grande susto, pois tinha certeza que o rapaz só estava enrolando e já tinha caído em si na burrada que tinha feito. E que era questão de tempo para ele soltar a menina.

Algumas perguntas ficaram em meu coração a serem resolvidas.

Por que algumas pessoas perdem a cabeça e se tornam assassinas?

Qual a diferença entre um assassino e uma pessoa de bem? Não seria o puxar o gatilho? Os que puxam são assassinos e os que não puxam não são assassinos? Ou tem quem puxe que não é e outros que não puxam que são? Complicado os critérios da lei sobre réu primário, quanto mais a teologia por trás disso.

Este caso me trouxe a memória o primeiro assassinato na escrituras, o de Caim e Abel (Gn 4: 1-8). E a mesma pergunta surgiu em meu coração, Caim matou porque era assassino, ou virou assassino porque matou?

Sempre colocamos o foco da revolta de Caim no fato de Deus ter aceitado a oferta de Abel e rejeitado a sua oferta. E ficamos perguntando por que Deus a recusou, sendo que nenhuma regra tinha sido estabelecida. Ou falamos que só pode ser que um deu de coração e outro não, sendo que a bíblia mesmo não coloca isso.

Lendo, reparei que no v.7 Deus vai conversar com Caim sobre o porquê de seu sacrifício não ter sido aceito e fala que se ele fizer o bem tudo ficará bem, mas se não, o pecado estará a porta e vai entrar. E mesmo sendo avisado Caim matou o irmão e procedeu com o mal.

Caim não se tornou assassino porque matou Abel, Caim matou Abel porque já era assassino. É por isso que seu sacrifício não foi aceito!

É duro assumir e entender isso que a bíblia nos coloca. Todos nós somos de natureza má e temos o mal em nossos corações.

Depois da queda todos nós fomos condenados a nascer egoístas, invejosos, deturpados sexualmente, corruptos, assassinos. Essa foi a escolha da humanidade em Adão, é assim que, no fundo, no fundo somos.

Aí você me pergunta: mas na prática nem todos puxam o gatilho. Eu mesmo não sou um tarado, mau caráter ou assassino!

Pois é aí que entra a graça de Deus. Quando não chegamos de fato a deturpação total de nós mesmos, foi porque a graça de Deus chegou até nós. Ela é chamada de graça comum ou graça sustentadora, pois cobre a crentes e não crentes e serve para manter a criação. Se não fosse ela a vida no mundo seria insustentável e todos nós viveríamos o mais pleno pecado de nossa natureza, de nossos corações.

A discussão agora vai ser se o Lindemberg é assassino ou um rapaz que teve um surto e matou por desespero ao ver a polícia entrar no apartamento. Sobre como a lei brasileira vai decidir isso, não tenho condições de opinar. Mas a pergunta teológica que surgiu no meu coração, vou arriscar a mudar.

A pergunta não é por que alguns de nós se tornam assassinos e sim, por que todos não são assassinos depois da queda? E a resposta é graças a cruz de Cristo que cobre a todos sustentando com a dádiva que vem de Deus, chamada amor.

Senhor, continue a sustentar com o bem a mim e aos meus amigos, para que o mal não ganhe espaço em nossos corações e que não nos tornemos o que realmente somos: maus!

8.9.08

Liderança não tão corajosa


Faz tempo que venho ouvindo falar do famoso Bill Hybels e da mega igreja que ele tem nos Estados Unidos. Aproveitando um trabalho da pós que estava fazendo em Teologia Urbana, comprei o livro “Liderança Corajosa” para fazer uma resenha.

O livro é muito bom e dá muitas dicas para quem é líder de qualquer ministério eclesiástico. Mas, sabe como eu sou... Aprendi a não engolir o que eu leio sem antes mastigar.

A certa altura do livro o senhor Hybels escreve que para ser de sua equipe, o líder precisa ter os três “C”: Competência, Caráter e Compatibilidade.

Logo que li pensei: nossa, realmente, como seria mais fácil se toda a minha equipe tivesse os três “C”. Que fossem competentes em todas as tarefas que recebessem e, que eu pudesse confiar plenamente no caráter de cada um e que tivessem compatibilidade plena com as idéias e projetos que Deus me deu.

Mas esse é o problema de tratarmos a igreja e os ministérios dela do mesmo jeito que o mundo corporativo. Tudo parece tão certinho e bem feito, mas quando passamos no crivo da vida de Jesus Cristo, vemos que os resultados a qualquer custo não eram um valor que ele viveu ou pregou. Isso diferencia radicalmente o mundo corporativo e a igreja que Deus planejou.

Vemos nos exemplos de Jesus e seus discípulos os três C caírem por terra. A competência nunca foi o forte dos discípulos, depois de muito tempo com o mestre não conseguiam expulsar demônios (Mt 17:16), nem curar, ou dar de comer ao povo (Mc 6:37). Quanto ao caráter, Pedro não estaria na equipe depois de ter negado Jesus três vezes (Mt 26:34), Natanael por ser racista com os Nazarenos (Jo 1:46) e, Tiago e João querendo passar a perna nos outros para ser o maior de todos (Mc 10:37). Quanto à compatibilidade acredito que todos não passariam no teste, pois até a ressurreição não tinham nenhuma compatibilidade com as idéias do mestre, uns queriam que ele fosse rei e Cristo falou que não, outros queriam que o reino chegasse por espada e Cristo falou que não; Jesus falou que iria para cruz e eles não queriam deixar e, principalmente Judas que, mesmo com a clara incompatibilidade em todas as áreas, Jesus andou ao seu lado até a última hora dando a oportunidade para ele se arrepender.

Pois é, seria muito bom ter uma equipe do jeito que Bill Hybels falou. Como cresceriam as nossas igrejas e os nossos ministérios! Mas Hybels fala para encontramos pessoas competentes, Jesus pessoas que querem viver o reino de Deus. Hybels quer apenas os de caráter, Jesus pessoas que saibam o que é certo e que saibam se arrepender. Por último, Hybels fala que o líder precisa ter compatibilidade com você e Cristo fala que tem apenas que estar disposto a amar.

Mesmo o livro tendo várias coisas boas e que podemos aproveitar, está posto a mesa: de quem você vai querer seguir o exemplo ministerial? Posso garantir que o resultado de um é de crescimento rápido e o outro mais devagar, mas dura há mais de dois mil anos. Lembrando que o líder da segunda opção acabou sendo morto!

18.8.08

Nossa luta é contra principados, potestades e celulares


Dizem que quando você possui uma coisa e não consegue mais ficar sem ela, você deixou de possuí-la e ela começou a te possuir.

Pois é, acho que é isso que o celular está fazendo com a gente, está nos possuindo. Deixou de ser apenas um aparelho eletrônico e virou uma potestade contra a qual precisamos lutar.

Já faz tempo que não assisto um culto sem, pelo menos uma vez, ouvir um celular tocar e logo depois ouvir o barulhinho de uns outros quatro serem desligados.

Como o celular se popularizou muito rápido no Brasil, não sabemos direito onde podemos usá-lo ainda.

Lembro-me de quando não tinha um celular e pensava: que luxo besta, não quero ficar amarrado com essa coisa. Mas só foi eu adquiri que tudo mudou.

No começo peguei um pré-pago apenas para receber ligações, depois colocava uns créditos para fazer ligações de emergência. Ate que foi indo e, quando vi já tinha trocado para pós-pago e estava gastando uma boa grana no maldito.

Foi quando um dia viajei e no meio da viagem acabou a bateria dele, quando abri minha mala percebi a catástrofe que tinha acontecido, eu tinha esquecido o carregador! SOCORROOOOO!

Mesmo exagerando, me senti impotente e confuso. Mas percebi que ele já estava virando uma potestade. A potestade é algo que tem poderes. E o celular pode ser uma!

Quantos encontros onde vou e, simplesmente, os pastores e líderes não podem desligar o celular. Damos mil desculpas, mas o fato é que não conseguimos, porque pensamos que se estivermos com ele temos um pouco mais de controle da vida. Assim o celular se torna o poder de controlar a vida!

Um dia, um pastor que gosto muito, me contou de como conseguiu colocar o celular no seu devido lugar, como um simples aparelho de comunicação. Ele contou que tinha tirado uma folga de uma semana e desligou o celular, quando ele voltou à igreja, um dos lideres falou: Porque, afinal de contas, você tem celular? Não consegui falar com você a semana toda. E o pastor respondeu de forma calma e serena: Meu amigo, eu comprei um celular para facilitar a minha vida e não a sua!

Bom, depois dessa, se você acha que o seu celular já começou a te possuir, experimente desligá-lo por alguns dias ou deixá-lo em casa às vezes. Tome cuidado com o seu celular, pois se você não consegue mais ficar sem ele, você já parou de possuí-lo e ele começou a te possuir!


"foto de Julia Junghans Demarque"

11.6.08

Quais mulheres são livres da escravidão dos olhos dos homens?


Lembro-me de, em um domingo à tarde, ver no programa do Faustão, após uma rápida reportagem mostrando como viviam as mulheres no Afeganistão, o apresentador trazer uma burca e vestir em uma das dançarinas do programa. Todos ficaram indignados ao ver como uma mulher tinha que se vestir naqueles países de religião muçulmana. Alguns entrevistados falavam: “é um absurdo uma mulher ter que se submeter a este tipo de veste por causa de uma religião (sociedade)” e uma mulher que estava perto de mim falou “elas se tornaram escravas por causa dos olhos dos homens”.

Mesmo não concordando de forma veemente com o jeito de vestir que a religião/Estado exigem das mulheres mulçumanas, pensando bem, não sei se o Brasil é muito diferente do Afeganistão. Acho que são dois lados de uma mesma moeda!

Em países de religião/Estado mulçumano, as mulheres têm que cobrir o corpo todo até a cabeça. Na maioria das vezes só ficam os olhos de fora, e que olhos! Isso vem de regras oficiais do Estado e da cultura local.

Eu sempre entendi que, na história, as mulheres “pagaram o pato” por causa dos homens. Por causa dos olhos, ou melhor, da mente dos homens, quem tinha que mudar era sempre a mulher. Até porque, Jesus não falou: se o teu olho te faz pecar, arranque o que você viu e te tentou e, olhe de novo!

Lembro-me de um acampamento, quando era adolescente, onde as meninas só podiam ir para a piscina de maiô e camiseta. Eles alegavam que se não fosse assim, estariam induzindo os homens a pecar. Na entrada da piscina tinha uma placa grande: Só é permitido roupa de banho de uma peça (maiô)! Eu e os meus amigos brincávamos: Eba! Então vai ter topless!!!

Mas por outro lado, temos que entender que esta escravidão das mulheres por causa dos olhos dos homens pode refletir de outra forma.

Voltando ao programa de TV, como era patético ver as outras dançarinas seminuas, indignadas por existirem mulheres que se vestem daquele jeito por causa de uma sociedade machista que imprime na mulher o jeito que ela tem que se vestir para ser aceita. Elas mal perceberam que aqui no Brasil a base do problema é a mesma, só que se reflete de forma contrária.

Dançarinas de programas de auditório, cantoras de bandas de axé, “funkeiras”, atrizes nuas na Playboy e uma infinidade de profissões, refletem a escravidão da mulher no Brasil que tem que mostrar o corpo para ser valorizada. Não percebem que a sociedade capitalista machista em que vivemos, fala com palavras bem claras: Mulher boa é mulher que tira a roupa!

Quando a dançarina do Faustão tirou a burca e ficou com sua sainha minúscula e seu bustiê, aí sim todos nós sentimos que ela voltou a ser livre de novo, livre de ser uma escrava dos olhares dos homens, livre de uma sociedade machista escravizadora.

Mas parando para pensar, lá no fundo da alma, me pergunto. Será mesmo?

[Artigo escrito originalmente para o www.sexxxchurch.com]

31.5.08

Marcha para Jesus ou marchar com Jesus?


Depois de anos, a chamada “Marcha para Jesus” firmou-se como um evento da cidade de São Paulo. Ela não trás tanto dinheiro como a marcha do orgulho gay, nem posso usar a expressão que a cidade de São Paulo parou porque faz um bom tempo que não anda, mas não podemos negar que se firmou como evento.

Nunca entendi direito este nome, pois alguém que marcha, marcha para algum lugar. Nesse caso estão marchando para alguém: Jesus. Será que ainda não o encontraram?

Hoje a Marcha para Jesus deveria ter outro nome para ser mais honesta com o que acontece, deveria se chamar Parada do Orgulho Evangélico. “Orgulho” porque o que mais acontece é que a maioria sai nas ruas para afirmar a sua fé e não para confirmar seu compromisso com a vida cristã. “Evangélicos” porque não vejo nos palanques desses eventos católicos ou outros representantes de outra religião, Jesus não é propriedade dos evangélicos e nos palanques só aparecem aquelas cartas marcadas evangélicas.

Nos evangelhos as pessoas que tiveram um encontro com Jesus acabaram recebendo o convite de marchar com ele e não para ele. Este é o grande chamado de Jesus, o grande desafio.

Aí caímos em uma outra dúvida, se não temos que marchar para ele ou por ele e, sim com ele, para onde Ele esta marchando?

Jesus estava marchando para cruz, e ninguém poderia impedi-lo, nem satanás, nem seu amigo e discípulo Pedro. Ele marchava para nos dar vida às custas da Sua própria. Devemos sempre pegar nossa cruz e ir com Ele até o calvário e morrer a nossa velha natureza lá.

Mas de uma forma concreta, para onde deveríamos marchar? Deveríamos ir até os necessitados, os presos, os que têm fome, os que estão com frio, os que estão com sede. Pois, afinal de contas, Jesus está lá com eles desde o começo.

Quem sabe um dia, o povo na Marcha para Jesus, não marche para shows e discursos em palanques, mas sim para encontrar Cristo nos necessitados. Marche com Jesus para que o reino de Deus se estabeleça aqui em São Paulo.

1.5.08

A culpa não é da sua falta de tempo


Quando vamos conversar sobre vida devocional, hábitos de leitura bíblica e oração, quase sempre ouço a mesma desculpa, que por sinal é a que eu uso, não tenho tido tempo para ler a palavra e falar com Deus.

Limitamos nossa vida em orações rápidas em cultos, antes de dormir e comer e, lemos a Bíblia em brevíssimas paradas programadas no dia.

Mas um tempo atrás tomei um susto em uma visita que fiz a um amigo doente, ele tinha sofrido um acidente que o deixou em uma cadeira de roda, não saia de casa, não podia fazer o que fazia antes, tinha todo o tempo do mundo.

Foi quando perguntei como estava este lado da vida dele, de leitura da palavra e de oração e ele falou para mim, triste, que não fazia, sempre procrastinava, arranjava outras prioridades e estava percebendo que no fundo ele não tinha prazer em se relacionar com Deus.

Sei que este meu amigo era um servo de Deus e, por esta certeza, foi que me entristeci.

Comecei a ver o tanto que nos enganamos neste assunto, sempre mudamos o foco do motivo primário do nosso aprofundamento no relacionamento com Deus.

Sempre que converso com pastores amigos de ministério vejo que eles, como eu, também têm este problema. Como é possível? Pregamos isso, vivemos disso, mas não vivemos isso!

Culpamos nosso trabalho, ritmo de vida, falta de ambiente, a TV, a internet, ou melhor, culpamos a falta de tempo, mas não vemos que o verdadeiro motivo é que não temos prazer nas coisas do Senhor, não é nossa prioridade o relacionamento com Deus, nosso coração não se importa o suficiente se não esta perto de Deus.

Mas para suportarmos nossa própria incoerência existencial, colocamos a culpa nas coisas externas a nós e não vemos o pecado que esta dentro de nós, quem realmente somos.

Entender o verdadeiro motivo pelo qual não nos relacionamos com Deus, irá nos humilhar sim. Mas será o primeiro passo para um relacionamento sincero com o Pai. Um passo para uma maior dependência dele.

23.4.08

Eles querem que matem mais crianças


A mídia nunca pensou que o assassinato terrível da menina Isabela Nardoni pudesse dar tanta audiência e dinheiro.

Não quero, aqui, falar da menina que era querida por todos e nem do pai e da madrasta que são os principais suspeitos do crime. E nem vou falar da necessidade de acharmos vilões para aliviar nossos medos e frustrações. Gostaria de falar da TV brasileira que não fala de outra coisa, a não ser desse assunto.

Me desculpa, mas não acredito que a mídia está muito interessada em mostrar que existem pessoas ruins, ou que o casal deverá ser punido de forma exemplar.

O que penso é que não importa se é novela, BBB ou uma menina sendo jogada pela janela de um apartamento no sexto andar, o que importa é a audiência que pode dar.

Há tantos assassinatos familiares, tantos pais que agridem os filhos, mas esse, por juntar vários detalhes intrigantes e perversos, foi um prato cheio para a mídia ganhar muito dinheiro.

Foi chocante ver uma entrevista, de quase uma hora no Fantástico, da madrasta e do pai da menina no último domingo (20/04/08), que foi dividida no meio para dar espaço às propagandas de carros, cervejas e outros produtos. Me lembrou a cena da novela que, após Juvenal Antena tomar um tiro, a música de encerramento da novela começou e percebemos que teríamos que assistir no outro dia o restante e a emissora ganharia mais dinheiro através dos comerciais.

O que tenho mais medo é que, entre novelas, reality shows e barbáries, as barbáries são mais baratas e dão tanta audiência quanto.

Tenho medo que esse caso abra portas para mais destaques desses programas sensacionalistas e que a mídia brasileira fique correndo atrás de casos de crianças jogadas pela janela, arrastadas por quilômetros por um carro, ou a mãe que acorrentava e dilacerava a filha com alicate, não para denunciar, mas para promover um show de terror alimentando de uma forma barata a audiência de sua emissora.

Deus nos livre de tão grande insensibilidade!